Negligência

Tema duro, tema difícil.
Porque já diz o ditado: atire a primeira pedra quem for livre de pecado, certo?

Claro, não estou me incluindo nessa, por não ter sido atenciosa, ao lado do meu marido, quanto ao zelo e aos cuidados necessários para garantir a segurança de nosso filho, ao longo de sua infância... Não é isso!!! A comparação aqui não é literal com todos os aspectos que dilaceram minha alma... 

Contudo, quem pode garantir que eu, em algum ponto, já não tenha negligenciado algo, na legítima sensação genuína de que " estava tudo bem, na mais perfeita ordem", quando, na verdade, não estava!!?? Será que eu, em algum mísero momento que fosse, já não deixei o meu semelhante na cova dos leões?? 🤷🏻‍♀️

Premissa feita, fato é que não estou aqui para destilar ódio ou raiva aos meus responsáveis ou cuidadores/tutores. Menos ainda, a outras crianças que só deveriam ser crianças, ao invés de cuidar de uma, seis anos mais nova!

Estou aqui, na verdade, para falar sobre o puro ato social da NEGLIGÊNCIA, tão somente!!! 

Aquela que está em cada esquina, em todos os lares, em algum canto de todas as famílias ou agrupamentos humanos (escolas, organizações, empresa).

Acredito que há horas em que as negligências, quando pequenas e tolas, são por nós assimiladas como meros deslizes... Como ocorrências sem importâncias que, na eventualidade de uma reincidência, assim permanecerão... pequenas e tolas. Sem encarar sua face mais realista, nua e crua: são daí que elas encontram solos férteis para crescerem, ganharem sofisticação e responderem pelas piores atrocidades!!!

🔸Segundo dados de 2026, 3 em cada 5 crianças no Brasil, sofrem ao menos um episódio de abuso ou assédio sexual, diariamente! Dentro ou fora de seus lares...

🔸Turmas escolares e salas de aulas, ambientes com bullyings silenciosos, racismo e tanto tipo de discriminação... se você usa aparelho nos dentes ou se você é bolsista em colégio de gente rica... Muitas então podem ser os abusos e assédios de natureza violenta e psicológica.

🔸Aí vem o período após a educação básica... cursinho pré-vestibular e o início da vida adulta, que vão te "jantar com farofa"  🙄 TODA NEGLIGÊNCIA do solo da criança que esse adulto em formação pisou. Se um professor ou um chefe, superior, vier com malícia, abuso, assédio em cima de você... o fato desse outro ser alguém que tem a premissa de ser "o superior", "o mais velho" ou "com mais tempo de casa" que você, mais experiente, acima de qualquer suspeita; e ainda, alguém que estabelece contigo outros tipos de relações de poder, na decisão de sua permanência nessas instituições e até o modo como você será percebido entre os demais do convívio social (quiçá, em toda reputação na área de atuação profissional/ educacional)... o silêncio ea impunidade viram seu álibi e, em certo ponto, sua única prova de idoneidade e inocência.

🔸agora, se ainda por cima, você for uma pessoa com autismo, sem diagnóstico, onde a literalidade, a falta de traquejo social para compreender malícias e insinuações; pois tais características não são uma opção, e sim suas condições de funcionar e existir no mundo... é fato, sua companhia será viver com o que há de mais peçonhento na sociedade, sem soro antiofídico.

🔸 se for mulher, terá sorte de chegar aos 20 anos de idade com "apenas" 2 ou 3 episódios de abuso sexual, violência doméstica e/ou de gênero; "esporádicos"... e por esporádicos, eu me refiro a não recorrentes, isoladamente. Isso, naturalmente, se tiver chegado a essa altura da vida, sem ter experimentado nenhum tipo de recursos estranho da mente como se auto lesionar ou dissociar... Eficientes, não nego, exceto pelo fato de seus efeitos terem uma ação muito curta!

🔸Então, parece lógico o que vem depois: não demora nada até você ser sua própria fonte de negligência: álcool, cigarro, sexo 'a torto e a direita', maconha, talvez outro tipo de drogas... O que for acessível! Vai passar aí uma média de 10 anos tentando entorpecer seus sentidos, mesmo diante de qualquer tipo de suporte (supostamente saudável): esporte, religião, voluntariado... Tudo, no fundo, subterfúgios para tapar um imenso buraco, uma cratera de total abandono e negligência que já não é mais possível retroceder para acolher.

🔸 E quer saber? A verdade é que, LÁ NO FUNDO, a pergunta de um milhão de dólares é sempre a mesma: virão novos grupos de relacionamentos (terreiro, grupo de estudos de tarot, paganismo, magia cerimonial, sagrado feminino, teatro, arte experimental, cidadania, literatura, astrologia...) e; em todos, você passa a personificar essa negligência a que foi vítima.. e ela será S-E-M-P-R-E revertida como escolha: é sua a culpabilidade, onde tudo se resume ao que há com você, como o que faz e porquê faz... uma inundação de questionamentos intrusivos que te conduzem (é só uma questão de mais ou menos tempo!) irremediavelmente ao posto de ser o algoz ao si mesmo, seu próprio condenado: "MAS O QUE É QUE EU TENHO DE ERRADO?" 

🔸E talvez esse seja o ponto: NADA! Talvez a maior negligência seja que somos alguém que simplesmente não somos nada e, por isso, se quer valha a pena que o outro faça QUALQUER coisa que justifique uma atenção, um gesto de zelo ou carinho, proteção... que fosse um pingo de consideração, até mesmo cuidado que tanto anseia. 🤷🏻‍♀️

🔸 No entanto, contra fatos não há argumentos...  já diria outro pensador: assaltos a mão armada, perda gestacional, laudo de autismo do filho no mesmo dia do sepultamento da mãe, em plena reabilitação após uma cirurgia de rompimento do LCA do joelho... e quem liga???? Nem quando é chegada a hora do seu retorno ao trabalho? Culpa sua que "resolveu" retornar ao trabalho no momento das férias de todos!! O que você podia esperar? Em janeiro, férias escolar, após as festas de fim-de-ano... porque imaginar alguma escala que fosse possível garantir qualquer tipo de apoio ou amparo a uma funcionária com um histórico desses, não é mesmo?!

🔸 Então, ele chega: meu irmão mais velho... e a negligência vai ampliando seu sentido e significado, conotativo e denotstivo. De léxico, emotivo e até judicial. Tá aí um processo (um não, dois!!) de inventários onde cada espólio era o esfoliar lento e cruel da minha própria existência, que não me deixa mentir.

🔸 Em seguida, duas internações psiquiátricas como consequências... onde ai, a negligência veio nos cuidados com uma pessoa portadora de TEA; justo no local que deveria ser o primeiro de referência em psicoeducação, mas que na prática , simplesmente foi inexistente e incompetente!!!

🔸 Como se não bastasse, a negligência, quando ela parece vir de tantos lados, ela se espalha... torna-se endêmica, prolifera-se em todas as esferas, até de onde era para se esperar amparo e assistência social. Minha demissão definitiva veio de um instituto que se diz de responsabilidade social. O longo e torturante processo inútil de ingresso público, por meio do Departamento de Perícia do Estado de São Paulo (DPME), negligenciou laudos, avaliações e relatórios, até conseguir a minha suposta inaptidão. Nem o DIREITO BÁSICO, garantido pela Legislação Orgânica de Assistência Social (LOAS) se dignou a deferir a solicitação de BPC ao meu filho autista (como lhe é de direito) a um tratamento de fonoaudiologia de cabine, que o SUS não oferece... Pois a negligência nada poupou, nem isto ela deixou escapar. Deram por indeferido um direito garantido por lei onde tudo o que nos restou é o caminho da judicialização (mais um!!)

🔸E, como a negligência conosco, uma hora, cobra seu preço: meu físico, meu psíquico, meu emocional, cada dia que passa, pifa um pouquinho mais. Ora é fibromialgia, asma-bronquite; ora é cólica, hemorragia, disautonomia... quem sabe? Tem negligência de muitos lados, para dar e distribuir... mesmo quando eu quis investigar. 

🔸 Hoje, até um farmacêutico, ciente há 3 anos, que faço uso contínuo de medicamento psiquiátrico, não faz mais qualquer cerimônia diante da sua 2ª negligência, consecutiva, com prazos e datas na entrega dos meus remédios... Afinal, quem tem síndrome e efeito com a retirada abrupta, não é ele, não é mesmo?

🔸Parceiros de projetos, responsáveis em guardar objetos de valor simbólico e significativo a vocês, por representarem um marco no projeto em comum; não vê problema algum em negligenciar sua propriedade (mesmo que tenha pago por ela, mesmo que tenha a melhor das boas intenções do mundo em repor, dentro do momento oportuno) para fazer ações de marketing, sem o seu consentimento!

🔸 Até mesmo aquele que usurpou da sua presença e da sua companhia uma vida inteira também não vê problema algum em negligenciar qualquer código de gratidão, bons-modos e até mesmo o mínimo de etiqueta social, quando o assunto é DE NOVO E DE NOVO, usufruir de você naquilo que a velhice, o medo e a doença lhe servir de álibi para tais delitos. Passados, presentes e, anunciadamente, futuros...
.
.
.
.
Pois bem, a quantidade de negligências que vivi e ainda vivo, desde a infância... DEFINITIVAMENTE, não é nada!!!!

Duro meeeeeeeeesmo tem sido descobrir que, BEM ANTES DISSO TUDO
     ...antes de perceber que o meu valor é tão pouco para essa sociedade;
     ...antes de saber que já não tenho qualquer valia para qualquer atividade social, voluntária ou até espiritual;
     ...menos ainda, valia menor ainda em qualquer uma das minhas formações profissionais de 40 anos, fruto de esforços e muita tortura para conquistar; eu me pergunto:

MAS E QUANDO EU SÓ ERA UMA CRIANÇA??

Poxa, eu tinha 4 anos... 
Como ninguém dessa sociedade ao meu redor: pais, tios, professores, TODOS CONSEGUIRAM DEIXAR PASSAR.... negligenciar sinais que hoje, parecem tão óbvio??????


➖➖➖➖➖ PRIMEIRO
Foi quando eu tinha quatro anos e veio aquela mudança extremamente radical e desproporcional no meu  comportamento, que sempre foi uma história interna de família... sobre "a personalidade da pequena Carolina";


➖➖➖➖➖ SEGUNDO 
As atitudes adultizadas acompanhadas, completamente descabidas a minha idade... em paralelo ao profundo pavor / pânico de dormir fora ou ficar longe da minha mãe. Totalmente anormal em proporção e medida para as situações, cada vez mais vergonhosas e exageradas!


➖➖➖➖➖ TERCEIRO 
naquela idade, além da mudança radical e desproporcional em meu comportamento; eu passei a morder e MASTIGAR VIDRO para chamar atenção!!!??? 

V-I-D-R-O


➖➖➖➖➖ QUARTO
No ano seguinte, minha genitália começou aparecer arranhadas e machucada porque EU MESMA passei a coçá-la, desmedidamente... sem saber o porquê ou pra quê!!  E sim, eram esfoliações feitas por mim, de fato... Agora, é óbvio: crianças de 5 anos de idade não fazem isso de forma natural!!!! Portanto, o que eu poderia querer com aquele comportamento? Reproduzir algo que eu já tivesse visto ou vivido...

...em outras palavras: eu, sem o menor amadurecimento bioquímico e neurológico para tal, devia estar querendo reproduzir um tipo de sensação dopaminérgica típica do estímulo sexual que, sem maturidade ou orientação, passou a funcionar como um vício no cérebro: eu só o queria, como uma criança quer doce!!!! 

(que horror!)
😓😥😢


➖➖➖➖➖ QUINTO
A partir dos meus 6, 7 até os 11 anos, vieram as brincadeiras de travesseiro que acabavam com fronhas enroscadas entre as minhas pernas, presas debaixo da calcinha... Embora eram minhas brincadeiras secretas e íntimas, que eu sabia que deveria fazer escondidas, embaixo das cobertas.... Foram mais de uma vez que minha mãe e outros adultos cuidadores me pegaram no flagra... Oras, como explicar? Simplesmente, ignorar??


➖➖➖➖➖ SEXTO
Dos meus 8 anos em diante, entrei numa piração mental que eu chamo de "fase de brincar de novela", com a minha Barbie e o meu Ken. Nas encenações que eu fazia de histórias românticas, eles não apenas se apaixonavam e se casavam... quando eu sabia que estava brincando sozinha, os bonecos iam pra cama.... Do mesmo jeito que um dia, nessa mesma idade, perguntaram para mim se eu queria brincar de novela (foi daí que eu tirei o nome da brincadeira!)... E claro, sem contar a ninguém!!! Seria um segredo. "A parte legal" 😖🤢 é que eu teria a chance de ser a protagonista mais amada da novela e viver o romance que terminava em uma noite de amor, com o mocinho... tudo "de brincadeira, de faz de conta"... Não ia acontecer nada... Foi o que me disseram.... e, ibviamente, não foi o que aconteceu! 

Acho que no fundo, inconsciente, eu não devia estar preocupada; pois, até aquela idade, eu REALMENTE não sabia o que era sexo, penetração ou coisas semelhantes. Só aprendi como os bebês vinham ao mundo, aos 12 anos de idade. Contudo, negligência ou não, uma coisa era certa: o meu inconsciente, o meu corpo e meu córtex frontal já sabiam o que era aquela sensação, mesmo sem saber dar nome... E sabia também o que era sentir dor, abuso do seu próprio corpo, vários tipos diferentes de violências; enfim, um estupro.

Na minha memória, após adulta, eu achava que, o meu primeiro histórico real de A.S.I (sigla usada pela documentação medica - Abuso/Assédio Sexual Infantil) havia sido APENAS NAQUELE MOMENTO, aos 8 anos de idade... brincando de novela. Hoje, aos quase 45 anos, eu descobri que não... que não foi!!!! Provavelmente aquele havia sido apenas o primeiro que minha psiquê deixou eu me lembrei... sem saber o que ela ainda guardava e desejava manter escondida e distante; como uma ação genuína em me manter segura e a salva de mim mesma. 

SÓ QUE AGORA:
➖ não há mais auto lesão, 
➖ não há dissociação, 
➖ não há mais como eu me valer dos entorpecentes como antes. 
➖ (nem mesmo os medicamentosos). 

Acho que, esse último MAIO LARANJA, eu não tive nenhuma escapatória senão estar aqui, agora, escrevendo tudo isso sobre negligência... para, pela primeira vez, quem sabe: não negligenciar mais isto.

NUNCA MAIS!


Comentários

Postagens mais visitadas