De chuva e (c)oração


Eu sempre gostei de tempo chuvoso.
Adoro os tons de cinza e o barulho da água caindo lá fora. Moro numa região de São Paulo que sempre chove muito. É até famosa por seus alagamentos. Mas, graças a Deus, o máximo que sofri materialmente com os temporais foi com goteiras. No limite, um pouco de água entrando por debaixo da porta ou ralos sem vasão suficiente.

Hoje, o cheiro de chuva que está entrando pela minha porta, seguido dos fortes trovões, veio me lembrar de outros tempos... quando sofri por outros aspectos não físicos dos temporais. Quando passava longos períodos sozinha, sem a companhia de ninguém, em casa ou em trabalhos solitários. Ou quando a chuva parecia chorar as mágoas que meus olhos não aguentavam mais derramar.

Os anos passaram, com a benção do céus as coisas mudaram, ainda que as chuvas não! Acho que – de tempos em tempos – elas aparecem para matar a saudade. O curioso é que a chuva de hoje veio também em um novo período de reclusão, onde passo 80% do meu tempo e dos meus dias sozinha em casa. As águas que caem lá fora e que aprecio pela janela da minha então casa real, no silêncio das minhas cachorras, tingem o céu com o mesmo tom de cinza, com o mesmo barulhinho bom. E, envolvida por esse momento, chego à conclusão mais gostosa do mundo: não sou mais só!

Caminho pelos cômodos da casa que dá para ver a chuva lá fora e em dois deles encontro algumas velas acesas. A mais alta, de proteção de defesa da casa e da minha família. A mais baixa, do meu marido, em sua novena por justiça e ordem. A terceira, vela da minha novena a Nossa Senhora do Parto. Olho minhas imagens. Olho meus móveis. Olho até a louça suja que me espera lá em cima da pia. E de todo coração eu sinto uma força maior que, tanto naquele tempo de desacorçoo quanto nesse tempo de repouso, eu aprendi a ativar desde muito pequenininha e que sempre, sempre me acompanhou: a oração.

Hoje me peguei rezando com a mente, contemplando a chuva, exatamente como eu sempre fiz diante de todo temporal que assisti sozinha em casa. As orações mudam, é claro, como a gente muda. Mas muda também sempre foi a voz mais profunda das minhas orações. Quase como se só o silêncio e o estado de contemplação pudessem ressoar juntos a voz do meu coração.

Não... não sou mais só. E a água que cai lá fora não é só aquela que fertilizou minhas dores e minhas reclusões. Chovi e ainda chovo muita vibração íntima que seiva os sentimentos guardados aqui no peito. E das janelas dos meus olhos, na luz das minhas velas, dentro do mesmo silêncio de oração é que hoje eu me desperto a emoção de um novo coração. Forte, pequeno, pulsante que seiva agora todos os sentidos guardados aqui no meu ventre.

Enquanto chove lá fora, uma vida nova está sendo gestada aqui dentro, para mim e para o meu bebê afinal. E com as bênçãos das águas que tudo molha e tudo purifica, eu novamente desperto (c)oração a esse tempo chuvoso... gostoso. Só que, dessa vez, em profunda gratidão e encantamento por tudo que com ele aprendi, vi e cresci.. E refiz de mim.

Comentários

Sarah Helena disse…
Coisa deliciosa de ler! Não tem nem o que dizer... é tão bom estar inteiro em si, quando nossa casa, nosso coração e nossa chuvasão um só...
Cassia disse…
que post mais lindo!!!! tenho uma relação especial com a chuva também! momentos importantes da minha vida - a começar com o meu nascimento - foram acompanhados de muita chuva. então pra mim é sempre sinal de bom presságio.

bjs
Bem emocionante e bonito post!também amo chuva, chuva de Hera e Zeus, ou de Oyá e Xangô, ou de Amanacy e Tupã de qualquer jeito ou Divindade amo chuva, são tão purificantes ,refrescantes e fertilizantes!=)
Que bom que vc nao está mais "só", na verdade nunca esteve sozinha nem nos seus momentos de solidão, Nossa
Senhora Sagrada ,a Amante da Solidão, A Senhora das chuvas e das tempestades te cubra com suas águas, para que vc possa fluir e conceber da melhor forma!=D

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