Enfim, 2014
2014 chegou! Ano de copa do mundo no Brasil. Eleições presidenciais...( já?! Parece que foi ontem que comemoramos a posse da Dilma em Bertioga...). Ano do meu reencontrar. Graças a força do amor das pessoas mais próximas e queridas, graças a intensa energia da família em minha vida, graças a sorte de ter tido acesso a bons profissionais e bons tratamentos, com o toque é claro do devido tempo e da espiritualidade, estou me recuperando de vez de um longo e tenebroso inverno depressivo de pelo menos um ano e meio (o que explica minha ausência no blog).
Estamos em abril e logo o Davi fará dois anos. Já anda, fala, faz graça, mostra suas ânsias e vontades. É de fato já é um ser independente que agora mora com a gente e que temporariamente estará sobre a nossa tutela (sei que ele será daqueles que cedo irá voar). Logo junho chega, mês de Juno e de Hera, meu mês de muito amor e união. Mês de quando conheci o Daniel, de quando nós casamos, de quando o nosso filho nasceu.. Neste ano completaremos 4 anos de casados.
E neste noite de sábado chuvosa, onde o silêncio fala tanto comigo, essa retrospectiva me faz chegar até mim. Passei o dia fazendo o que tenho feito de melhor dos meus últimos dias: me dedicando a arte de cuidar! Bem cedinho preparei a mamadeira do Davi. Ele me acordou chamando "mamanhê" e de bate e pronto (confesso: completamente assonada!) já o acolhi em nossa cama, liguei o desenho e curtimos mais umas horinhas juntos até a hora de levantar de fato. O dia passou e acabamos ficando em casa (coisa rara de acontecer aos sábados)... Nenhum programa legal, grana bem curta pra tudo, poucas opções de lazer na periferia da Zona Leste de São Paulo, marido cansado, telefone e celulares mudos, quietos. De modo que me restou o de sempre: cuidar da casa, fazer almoço, lavar roupa, cuidar e brincar com as cachorras, estimular e estar o máximo que eu posso com meu filho, nos intervalos de tudo, momentos de amor e carinho com o maridinho... Ora um pouco de facebook, ora um pouco de TV. Muita Peppa, Aladin, peixonauta, doki, patati patatá e velozmente. Mas também muito quintal, muita brincadeira na água, muita Pituca e muita farra no chão.
Quando a noite chegou, naturalmente o cansaço do dia chegou e foi lentamente envolvendo cada um de nós. Dessa vez não tivemos janta. O Davi escolheu uma ameixa bem vermelha. O Dan foi de chá para a garganta e eu, antes de vir com a companhia do iPad para o quarto, fiquei com o tradicional café com leite e o pão com requeijão para tomar os remédios da noite. E neste exato instante que digito cada letra na tela touch, penso em gente que amo. Penso na minha mãe, na Mariza, na mãe dela que fez aniversário, na madrinha do Davi com quem tive o prazer de papear hoje, no meu irmão que estã tão longe, e meu irmão de alma que um dia já foi tão perto. Penso na minha tia, sua mãe, que se foi e no pai que nunca tive. E nessa hora não dá para não pensar no mesmo ofício. Lembro-me dos trabalhos profissionais que tive e resgato também um pouco da minha graduação oficial. Fico me perguntando o que farei disso tudo o que vivi, depois que todos já estão cuidados e dormindo sossegados... O que restará pra mim? O que devo fazer que seja só meu?
Sabe, de verdade, não tenho essas respostas. E depois de tudo o que passei, desde que o Davi nasceu e essa mudança feroz que a vida da gente dá quando temos um filho, depois da luta para vencer uma doença que hoje não se foi, está apenas controlada, guardada em algum canto de esquecimento do meu ser... penso até que seria prematuro da minha parte já ter respostas como essas...
Eu me dei até o meio do ano para descobri-las. Para que em agosto eu pudesse caminhar mais firme, agora de fato só com as minhas próprias pernas. E consciente de que, embora eu AME cuidar, ame ver tudo o que construí com a generosidade que o destino me presenteou, de hoje ter muito mais do já fui capaz de almejar pra mim; ainda sim sou forçada a reconhecer que tudo isso não basta. Veja: até basta, poderia na teoria muito mais do que bastar... Mas a prática do viver me exige mais. Exige que eu também seja algo para mim. E isso, sinceramente, é profundamente desconfortante de cogitar.
Quem - por ventura - tiver percorrendo essas borradas letras, explicarei melhor: hoje eu vivo numa época onde nós mulheres ocupamos lugares que há muito nos foi negado. O mercado de trabalho, os cenários sociais, os ambientes de decisão e poder. A nós, existe uma herança moral de sim, seguir com nossos papéis de mães, filhas, esposas e donas do lar. Que educa, cuida, sustenta. Mas também de continuar ocupando cada vez mais esses espaços que outras mulheres - que já não estão mais entre nós - sacrificaram isso tudo para garantir que hoje pudéssemos estudar, trabalhar, trepar, viajar, comprar, pensar, decidir. E, portanto, "não pode" bastar não ser cada vez mais!
Confesso que não se trata de uma imposição, ou de inovadores padrões comportamentos... Nada disso! No fundo, trata-se de um algo a mais que todas as mulheres da minha geração (ou pelo menos a grande maioria) querem além de tudo isso, mas que seja só delas, Pessoa Física, como diria uma grande mulher, mãe, esposa, filha, devotiva e gostosa amiga querida.
Para algumas mulheres, percebo que encontram o que as preenchiam com arte: canto, dança, artesanato. Outras se encheram de fazeres: caminham, correm, fazem Pilates ou ioga, nadam, vão a academias, gostam de culinária ou jardinagem. E um tantão ainda são mulheres executivas: trabalham, prosperam, ocupam cargos, alcançam mais do que o céu em suas trajetórias profissionais.
E eu, sem eira nem beira, reconheço pedacinhos de mim em cada uma delas. Canto, muito às vezes caminho, estou envolvida com desenvolvimentos de projetos sociais. Leio muito sobre isso. Mas essas coisas todas que vão arrematando minhas horas do dia, que sucedem o transcorrer dos meus dias e, por fim, ocupam a minha semana, para se repetirem em outra e outras semanas subseqüentes.... ainda são apenas sombras do que permeia o espaço oco que hoje em mim habita. Sem que eu, de fato, consiga preenchê-lo. Não sei se ainda não me encontrei de verdade. Sou obrigada a dizer que tenho até dúvidas se tenho que, de fato, algo pra achar. Se, ocupada com essas questões vãs eu possa, sem querer, comprometer tudo o que tanto venero ter. Ou, ao contrário, se subjulgá-las eu anularei o que efetivamente eu deveria ser. Em resumo: não sei!
Como diria meu querido Renato:
"Quero me encontrar, mas não sei onde estou
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui"
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui"
Enfim, 2014 chegou. E com ele um mundo de muito tudo por vir.
Quando eu chegar lá prometo voltar aqui para contar.
Mas por hoje, agora que a chuva parou, uma coisa já bastou:
Meu puro prazer nas palavras e o ato de espalhá-las no ar.
Desde pequena sempre me encontrei em agendas e diários onde palavras me davam os passos.
E aos 32 anos, vim buscar no meu querido blog um espaço que sempre estará por me esperar.
Uma folha branca só minha, um mundo onde mora todas as possibilidades.
E minha trajetória se reconhece de volta ao espelho, reflexo do que sempre tive como meu.
O gosto por criar, falar, expressar. O me comunicar e a arte de narrar.
Escrevo, como sempre escrevi, com dedos e afetos. Português e cérebro. Texto e movimento: envolvimento.
Vou dormir com mais um pouquinho de mim. Que agora deixo aqui para quem me ler.
Acho que sonharei com esse mosaico de mistérios meus e espero no espectro desvendá-los.
Quem sabe por lá não acho a cara e a forma de uma certa Maria Caroina, esquecida, empoeirada, mas preservada de todo e qualquer desconserto. Esquia, interina, amadurecida. Que saberá prosseguir nesta vida com muito mais histórias para contar.








Comentários
Caroleta,obrigada pela consideração,pelo carinho,pelas palavras,pelas lembranças e por me citar no seu texto!!To meio sem palavras... (pode me zuar).
Quero muito te ver,te abraçar e juntar nossas familias numa tarde de domingo só pra ver a cria brincar! :)
Sua perspectiva, de sermos uma nova eu e não tentar mais resgatar o que ficou para trás já me fez pensar por um prisma novo, diferente do que escutei até agora. Pode ser... Quem sabe! Rs. Mas só pela reflexão, pela contribuição é que quem deve fazer algum agradecimento aqui sou eu! Obrigada pela paciência de me ler, por comentar e partilhar isso comigo.. Mesmo em estados diferentes, caminhamos juntas um mesmo momento de vida, acho. Cada qual com seus contextos e bagagens.
Contudo, uma coisa eu tenho como fato: esse domingo irá chegar e nele vamos nos encontrar para juntas compartilhar deste novo ar da vida em nossas vidas. E vamos ver nossos filhos brincar, enquanto muitas risadas vamos dar. E quando esse dia chegar, saberei que tudo valeu e pra sempre valerá muito a pena!
Beijocas