Por quantos abortos uma mulher que sofre uma perda gestacional ainda tem que passar?

Sabe-se que o aborto espontâneo (a morte embrionária ou fetal que ocorre de forma natural) é considerado a intercorrência obstétrica mais comum entre gestantes; geralmente, antes de 20ª semana de gestação.

Por conta disso, estima-se que até 20% das gestações terminem em um aborto antes da 16ª semana. Entre elas, 80% ocorrem nas 12 semanas iniciais, segundo dados da OMS.

Sendo assim, mesmo eu não sendo uma pessoa muito boa de conta, a proporção é algo entre 1 para 4... Uma a cada quatro mulheres gestantes de 1° trimestre não chegará a pegar seu bebê no colo.

E aí vem o 
1° aborto... O físico!
Seja hemorrágico, retido; com ou sem curetagem, cada mulher que passa por isso tem sua própria história a contar. 

No meu caso, esse ano é meu segundo aborto espontâneo e, graças ao apoio de alguns coletivos - como o grupo Do Luto à Luta: Apoio à perda gestacional - eu consegui contar um pouco mais sobre essa minha experiência nesse post aqui, no meu instagram.


Depois, ao retornar para sua casa, A mulher que sofre uma perda gestacional, inevitavelmente, passam pelo o 

2° aborto: o pessoal
Lidar com planos frustrados, roupinhas que não serão vestidas e chá de qualquer coisa (bebê, fralda, revelação, benção) que não vai mais acontecer... São tão doloridos de lidar quanto o primeiro aborto, o efetivo. Pena que para esse não há medicação anti-espasmódica para aliviar a dor.


Aí, quase que em conjunto, simultâneo ao 1° e o 2°, vem o

3° aborto: o familiar! 
Embora seja um ato solitário em nossa sociedade, engravidar é algo profundamente social. Na maioria das vezes, familiares se envolvem, expectativas por eles também são criadas e, por mais que nós mulheres não tenhamos responsabilidade alguma, receber aquele olhar por não ter podido segurar os sonhos de outrem é tão dilacerante quanto uma hemorragia. 

As pessoas te olham como se procurassem alguma justificativa para suas próprias decepções com a notícia. Algo que explique a elas como isso pode acontecer. Mas novamente, não temos explicação suficiente que pareça bastar... Apenas frases clichês (ou "culposa"), do tipo "a gestação parou de evoluir", "não tem mais batimento cardíaco", ou a pior de todas: "não consegui segurar"; como se dependesse da nossa vontade!! 

Depois disso, como vivemos em uma sociedade de produção, a mulher enlutada normalmente passa por uma licença de 7 a 15 dias do trabalho, para se recuperar do pós (cirúrgico ou não) de múltiplos vazios! 

A criança pode não estar mais em nosso ventre, mas - na maioria das vezes, essa mulher continua com a barriga de gestante, sem caber em suas calças, em um com o corpo morto de onde deveria sair só vida. 



Se ela passar ainda por algum procedimento mais evasivo como eu, ainda tem cólicas e sangramentos que nada se assemelham a um ciclo menstrual. 

Aí é ferro e complexo vitamínico na veia e monitoramento diário de um absorvente que parece querer esfregar na sua cara tudo o que você agora precisa superar, virar a página e/ou esquecer. 

No meu caso, esse foi em 15 dias, o 

4° aborto: o emocional! 
Este sim, mais parecido com aquela ideia de menstruação hemorrágica, porque vai se esvaindo cada dia uma cachoeira. 

E, com ele, vem junto pelo menos mais uma série de exames de ultrassom transvaginal seguidos, para verificar possíveis sequelas ou coágulos; em um ambiente onde só tem grávidas, conversas sobre os planos, que para nós foram aspirados, e barrigões em contagem regressiva de semanas gestacionais. 


E, para nós, a cada guichê de atendimento, novamente a tortura de contar o que aconteceu, como aconteceu e detalhes de medicina fetal que não fazemos a menor ideia; mas mesmo assim, por uma questão de protocolo e histórico da paciente, eles sempre perguntam.

E aí vem aquele reviver reafirmatório, disfarçado de equipamento de penetração que mede colo do útero, trompas, ovários, mostra que não tem nada lá, abre o áudio para você ouvir de novo nenhum batimento cardíaco de outrora... E, lógico, com é de se esperar, a pelve já está suficientemente dolorida e sensível, tanto quanto o nosso emocional; ambos esgotados de tudo aquilo, só o que pensamos é no tempo que falta para aquilo acabar.

Se a mulher der a sorte de não ter sequelas, ao menos a quantidade de aborto pelo qual ela passa após uma única perda gestacional diminui...

Mas, se for encontrado um coágulo residual, pode voltar aí 4 casas nessa lista que lá vem tudo de novo: 

+1 aborto físico,(até o corpo expelir sozinho, com toda aquela dor e contração de novo);

+1 aborto pessoal,(porque não é possível que na hora que você acha que aquele pesadelo vai acabar, vem de novo uma notícia DO NADA, que muda tudo o que você imaginava que seria seus dias dali para frente e só o que fica é o pânico por ter que passar por aquilo tudo de novo);

+1 aborto familiar,(que naturalmente, preocupados com a nossa saúde, inundam a gente de perguntas, hipóteses e indignações se está certo ou não estarmos passando por aquilo... Se é negligência médica, se é falha sua que não fez o repouso devido etc.);

+1 aborto emocional,(porque além de tudo até aqui narrado, são inúmeras dessas ocorrências que ocorrem ao mesmo tempo, misturadas; difícil de processar, difícil até para essa que vos escreve separar de modo didático para facilitar a compreensão.);


Como integramos um grupo de uma em quatro gestantes a passar por isso, inevitavelmente vamos descobrindo pessoas ao nosso redor que também passaram por isso e que hoje estão bem; não obstante, com seus bebês arco-íris no colo, trabalhando, sorrindo... E aquilo vira um turbilhão de dúvidas em nossa mente:

----> Por que tantas mulheres passam por isso caladas, tanto por suas perdas, quanto e principalmente como foi seus caminhos de superação?

----> Se somos 20% das gestações que terminam em um aborto antes da 20ª semana, porque não se tem uma acolhida própria para esse público que corresponde há 1/5 de todas as gestantes que esses serviços especializados em saúde da mulher VÃO atender??

----> Por que é tão difícil as pessoas validarem uma morte embrionária tal como a morte de um filho em qualquer que fosse sua idade? Afinal, uma mulher se torna mãe no ato que descobre sua gestação. Passa 3 meses cuidando e carregando aquela maternidade como qualquer mulher no puerpério e, assim como elas, após um aborto, também passam pelo mesmo despencar hormonal tão dilacerante e desafiador para equacionar. 

Se ela então, nesse interim, estava em processo de remissão em medicação psiquiátrico para priorizar a saúde do bebê durante a gestação; apoiada na quantidade de progesterona que a gravidez produz como suporte... Ixi!!! Aí esquece!! 

Pois mesmo dados indicando que cerca de 5% das mulheres do mundo sofrem com depressão; seja por hereditariedade genética; alterações hormonais; estresse; efeitos adversos de medicamentos; presença de algumas doenças, como a distúrbios da tireoide e pós-parto... Imaginem quão complexo seria a equação remissão psiquiátrica durante as primeiras 12 semanas de uma gestação que terminou em um aborto retido, procedimento cirúrgico e posterior coágulo residual?? Sem chances!!! Aí já são muitas variáveis complexas para estabilizar e considerar.

E você pensa que a conta para responder ao título dessa postagem acabou aí? Não, não! Tem mais...

Se depois disso tudo, essa mesma mulher, passa por isso sem grandes prejuízos financeiros e, em 7 a 15 dias, é avaliada como apta para retornar ao trabalho; dessa vez ela sabe ANTES que vai passar pelo

5° aborto: o social!
Porque você retorna a um convívio que, por melhor que seja a intenção das pessoas no seu ciclo de convivência profissional (e eu acredito muito nisso) vai de dois, um: ou forçar para fazer de conta que nada aconteceu, ou as pessoas começam a te evitar/excluir dos momentos de interação social. 


E, coitadas, quem pode julga-las?! Vivemos em uma sociedade que não fala sobre morte, não se prepara para lidar com a única coisa que se tem como certeza e que será inevitável viver, mesmo durante um período pandêmico, onde se chegou a um ponto em que se noticiavam 4 mil óbitos/dia. Bastou falar de #covid19 e, invariavelmente, entre todos em uma rodinha de conhecidos, há ao menos um caso de óbito, senão na própria família, por certo perto do convívio social de todos os envolvidos no papo.

E, mesmo assim, em dois anos ppandêmics, carregar um luto nas costas, ainda sim parece estigma de leproso. Quando não se quer nem chegar perto, quem se aproxima quer saber tudo até os pequenos detalhes. 

Se tiver crianças novas que sabiam então que você estava de licença para ganhar um bebê; minha nossa!!! Pode colocar um punhado a mais de cal no coração dolorido, mesmo estas, tadinhas, inocente de tudo, assim agem sem maldade alguma.


Porque além de uma mãe enlutada, nós mulheres que nos tornamos #mãesdeanjo também carregamos inúmeros outros óbitos: 
---> o da esposa perante o seu cônjuge; 
---> o da mãe do primogênito doido com a ideia de se tornar irmão mais velho, 
---> o da profissional que também de uma hora para outra, novamente tem que se despedir da gestação de um projeto/metas profissionais que não poderá mais acompanhar/cuidar (ora pq não pode mais trabalhar presencialmente, ora pq é obrigada a retornar presencialmente)... 

.....em, enquanto isso, seus filhos profissionais vão ficando órfãos (na verdade, você deles!). É tirado de você a chance de vê-los crescer e dar seus primeiros passos no seu crescer profissional.

É LÓGICO que em um país que passa por uma grave crise enconômica e social, só de ainda ter emprego para voltar já é motivo de comemoração e alegria. Mas quando você não consegue sustentar aquele positivismo que todos esperam de você (até você mesma!); que não faz mal ter passado ai uma penca de abortos diferentes em tão pouco tempo, que "a vida continua e é isso que importa. Deus sabe o que faz, o que é melhor para gente"... É o que nos dizem. É o que você quer acreditar!!

Mas, ainda sim, dentro de você, um punhal de lâmina bem afiada insiste em aparecer bem na ponta da sua guela, por dentro, e desce te rasgando até o útero, esvaindo e espalhando todo aquele sentimento de fracasso... QUE NOVAMENTE VOCÊ NÃO PODE EVITAR!!!

E você, como bom gato escaldado que tem medo de água fria, pensa: será que vou passar por mais um aborto? O profissional!?! Depois de tantos planos interrompidos, tantos recomeços sem meio. Tanta projeção hemorrágica, esvaída? Que novamente não deu para segurar???

Muitas são as dúvidas...
Contudo, nesse mês da conscientização da perda gestacional e neonatal... 

...finalizo aqui essa lista, com um pequeno apelo aos que até aqui chegaram na leitura: acolham essas mulheres, mesmo que em silêncio. 

Se possível, verifique com ela que tipo de rotina ela tem condição de bancar. Não espere nada dela, deixe que em seu tempo ela demonstrará o que está ou não pronta para bancar. 

Não a exclua, ao contrário, a traga para perto. Seja numa piscina de pelúcia ou apenas com uma mensagem carinhosa em grupo. Para que ela se sinta aceita, mesmo que os planos não tenham saído como o esperado. 

Que ela seja esperada em seus ambientes de trabalho tal como a receberiam se fosse com enxoval e fraldas. Não é culpa dela que tantos planos e tantos sonhos foram interrompidos. 

Logo, sem eles, certamente essa mulher vai se ver perdida e sozinha... E não há nenhum programa de benefício social e/ou código de conduta empresarial, nem mesmo um mísero artigo institucional, que se preocupe em reinseri-la no ambiente de trabalho / relacional.

Mais do que um sinto muito. 
Mais do que um evitar cruzar com ela ou falar sobre
Mais do que um abraço (que agora até o distanciamento social imposto pela pandemia do coronavírus, se quer permite)... Só o que essa mulher precisa é de uma acolhida que mostre para ela que está tudo bem. Que sua reputação ou história pessoal/profissional não serão manchadas por conta disso. 

Que retomar a rotina que ela tanto almeja para conseguir virar a página será algo zeloso. Que haverá quem lhe estenderá a mão quando ela estiver novamente em pânico e lhe acompanhará até esse baque passar.

Sem cobranças ou negligências.
Com esforço em seu entrosamento e, sobretudo, compreensão.

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