mundo invertido de valores questionáveis
Madrugada de domingo, dia 24 de julho. Estou acompanhada de um mix de castanhas e vinho quente sobrado do "Arraiá Julino" da família Pereira. Evento este sonhado pela minha mãe, talvez até ansiado por boa parte da família que vieram de longe (Inglaterra, Acre, Distrito Federal) só para celebrar a vida!!
Sim, minha mãe venceu a covid-19! Sorte que mais de 670 mil brasileiros não tiveram, mesmo ela sendo portadora de DPOC, estágio IV e último da doença.
Aqui estiveram uma versão atualizada de todos os integrantes do tronco principal da Família Pereira (onde a minha avó materna Ludovina foi a matriarca, falecida em 2008); com representantes das suas 3 principais ramificações: Pereira Labate, Pereira Okada e Pereira Carvalho (como esta que vos fala). Só que agora, diferente dos natais de outrora, cada galho desse se ramificou entre os Labate Fernandes e Soares Labate, Okada Silva e Okada Sherborne, Pereira Carvalho de Almeida... e amigos. Novos amigos! Os tais "agregados" que, de tão próximos, formam a família de coração. Dos presentes aos ausentes, que garantiram presenças afetivas nas prosas e memórias: primo que um dia já foi minha outra metade da laranja sumido do nosso convívio, primo que está prestes a ser pai de gêmeos, primos que estão no Japão; além da minha cunhada e um sobrinho meu que moram em Rio Branco e não puderam vir para SP, com meu irmão e minha sobrinha; mais alguns filhos de um primo, "presos" a compromissos de trabalho em Brasília.
E, ainda sim, mesmo guardadas as devidas diferenças das celebrações natalinas que esta casa - onde eu moro hoje - já recebeu por esses mais de 30 anos, o Arraiá Julino não ficou sem os tradicionais e exagerados cardápios típicos. No almoço, um belíssimo carreteiro goiano, feijão tropeiro, salada, farinha de mandioca e o feijão mineiro; marca tradicional e registrada da família, feito para ensinar aos mais novos, os segredos e o tempero legado por nossa vó a minha mãe. O mesmo feijão que era também o primeiro prato a acabar em todas as refeições feitas juntos (de tão bom e inigualável que esse jeito de fazê-lo é!)
Além disso, o festejo também contou com os quitutes feitos para entrar noite a dentro, ao pé da fogueira atrasada de São João: pinhão, sanduiche de carne louca, torta de frango catupiry (que não vingou), pão de queijo, mini-pizza, pipoca... e os doces: canjica, pingo de doce de leite, doce de abóbora, cural (que também não vingou), paçoca , bolo de fubá cremoso, arroz doce (que nem chegou, ficou só no intento) e o bolo brownie de chocolate belga, sem glúten, para o parabéns aos cancerianos da família, incluindo o aniversário de quem era a verdadeira razão da festa: a vida da minha mãe.
Faltou sim as bandeirinhas e os balões para a decoração, graças ao extravio dos correios; mas, as brincadeiras de pescaria, boca do palhaço e jogo da argola deram conta do clima de quermesse, principalmente para as Pereiras recém-chegadas a nossa árvore genealógica: Íris e Luisa, as filhas dos meus primos, de 3 anos cada.
As atrações fizeram sucesso. Até os meninos, um pouco mais velhos (incluindo o Davi, meu filho e os primos, filhos da minha prima se renderam ao jeito de ser criança de antigamente; largando por alguns instantes os tabletes, joguinhos e celulares.
Sim, foi bom.
Minha mãe ficou muito feliz.
Era o objetivo, afinal.
Mas eu? 🤔
Hum... eu, do fundo da alma, não sei o que dizer.
Se por um lado que sempre AMEI organizar as festas daqui de casa e trabalhar durante o evento; cozinhando, servindo, arrumando mesa e as atrações, dando suporte a infraestrutura da casa (lixo, banheiro, abrir e fechar o portão). Mas, por outro lado, em minha atual conjuntura, tudo foi muito diferente, doído e frustrante!
1º) por conta do meu joelho: ainda não estou 100% recuperada da cirurgia e a tal "intercorrência" da reabilitação (edema ósseo e derrame na articulação patelar).
2º) porque foi extremamente cansativo e estressante o modo como, a ausência de mais anfitriões que dessem conta de todos os chamados + preparativos, acabou legando uma tremenda sobrecarga nas minhas costas (que só consegui repartir um pouco com o Daniel).
O que antes era feito por 4 pessoas saudáveis - minha mãe, meu irmão e eu, com condições físicas e de saúde, compatíveis com a nossa disposição de 25 anos atrás + uma inquilina que morava nos fundos; HOJE, restringiu-se a mim (após uma queda durante a semana) e ao Daniel (e, pontualmente, no fogão ou na mesa, um primo ou outro, ajudando na cozinha ou atendendo aos pedidos da minha mãe que; com todas as limitações dela atuais, ainda estava cozinhando e atendendo a pedidos saudosos da nossa "gastronomia familiar").
3°) A isso, acrescente a cada intervalo, os afazeres de cuidados para com a minha mãe (desde levá-la ao banheiro e monitorar horários de remédios, sinais vitais) e com o Davi (como autista no espectro 1, a quebra de rotina, horários e barulho levaram-o a diversos momentos de desregulagem emocional); que precisavam ser conciliados com tudo.
4º) por fim, teve a cereja do bolo que foi a prova de fogo que me vi tendo que enfrentaram ao longo de todo dia: ser exposta a sucessivos gatilhos de circunstâncias do passado, quando eu me deparava com sucessivos ocasiões de desestabilidades emocionais, refugiada e trancada no banheiro (para chorar / me esconder e me consumir em auto piedade e autoflagelo mental, por tudo o que eu sentia e pensava a respeito de mim mesma e do meu ser com relação ao outro em cada situação); até conseguir vestir uma máscara de alegria e retornar ao evento, disfarçando bem não apenas o que eu estava sentindo ou pensando; sobretudo, quem eu era e o que eu precisava, para não desapontar ninguém.
Só que hoje, diferente de outrora, percebi quantas foram as milhares de vezes em que fui a senhorita perfeita, aluna exemplar, filha/sobrinha parceira e ativa, só para merecer a atenção e aprovação dos outros, frequentemente de quem eu mais amava, ou ainda, aquelas a quem eu queria impressionar; a custa de escamotear para debaixo do tapete todas as dinâmicas sociais e familiares que tanto me dilaceram e me fazem mal.
E o pior foi que, HOJE, por alguma razão, o banheiro não serviu mais como um local de refúgio. Sair de perto, me isolar em alguma posição fetal ou abraçar minhas pernas enquanto os joelhos estão curvados, por algum X motivo que eu atualmente ignoro, nada disso me é mais tão reconfortante!!!!
Meu íntimo, especialmente hoje, demonstrou estar menos obediente e passivo de ser negligenciado. Exigente, foi me atormentando a cada dor muscular do meu corpo, como quem cansa de ser vilipendiado e resolve marcar posição, em protesto.
Brincadeiras, quando dirigidas a mim, vinham com ares de santo de casa que não faz milagre. Bom mesmo é sempre a galinha do vizinho, que é mais gorda. Se você esfola o cú na guia e corta um dobrado para fazer tudo acontecer, para que todos estejam em condições de estar - como o esperado ansiosamente por todos - desde às 11h, cozinhando e passando um tempo junto; OU você é invisibilizado (afinal, não é mais do que a obrigação de quem está recebendo os convidados, ainda que a festa não seja sua!), OU você é o motivo da chacota e do escárnio.
Se você tenta cavar um pedaço da brincadeira e da tiração de sarro (frente a esse princípio estúpido e enraizado em nossa sociedade que parece estabelecer que menosprezar ou constranger o outro são formas legítimas de descontração e divertimento em grupo🤦🏻♀️); você é o errado, o culpado, "o que não entende", o motivo da chacota (sem intenção, lógico; afinal, de boas intenções o inferno está cheio). Se, ao contrário, você decide se afastar disso e, como alternativa típica de um ser hiperativo como eu, resolve então entra no modo 360, engatando a 4ª marcha e sai - de um jeito meio workarolic - ocupando-se de serviço e atividade; aí você se torna a chata, que não pára, não se diverte, que não aproveita a ocasião para estar com aqueles que vieram de tão longe matar a saudade. Acho que fica claro, enfim, porque nessas horas, o corpo resolve não cooperar.
Não tem jeito. Parece que, nesse mundo invertido de valores questionáveis, quem se dá bem é sempre o esperto, o malandro, que é individualista, que faz só o que quer, a hora que quer... e dane-se os outros. O que paga mais para garantir que tudo saia como seja do seu contento, será sempre o "estranho no ninho".
Foram 6 dias, 3 situações de reunião familiar e inúmeras facadas que fui sentindo, literalmente, uma a uma, a atravessar as costas, durante a estadia dos meus familiares em SP. De patadas inusitadas aos desprezos de sempre; passando pelos constrangimentos e desalentos, nos raros e breves momentos em que você era convidado a falar de si (como está o seu trabalho? seu joelho?). Nessas horas, você lembra da epopeia até a cirurgia, revive os desafios da reabilitação motora até a atual intercorrência. Ou, quando o assunto é o meu emprego no Instituto, por dentro, vem o sentimento de fracasso e frustração disfarçado de normalidade e otimismo social, protocolar, de que é assim mesmo e que logo tudo vai ficar bem.
Enquanto isso, meu filho, sozinho, perdido, ficava ali ansiando pelos pingados momentos em que o pai e eu conseguíamos passar na sala para vê-lo e saber dele se estava tudo bem; se ele estava precisando de alguma coisa e, assim, se podíamos fazer algo por ele. Quando tínhamos 5 minutinhos de luxo, aproveitávamos para ficar abraçadinhos com ele... e meu marido, coitado, feito barata toda, tão exausto quanto eu.
Enquanto isso, meus cursos ficando, o Daniel abrindo mão de fazer suas corridas pelos aplicativos!!! Sem a devida continuidade, minhas bolsas de gelo sendo postas de lado; em suma, uma vida interrompida, sem uma perspectiva concreta do que dela ainda restará para fazer, muito menos como.
Assim cheguei ao fim desse dia, ao pé da cama, a meia noite e meia, com 2 Rivotril de 0,25mg sublingual, um cochilo de 4 horas e uma insônia danada com a cabeça tão cheia de todas essas palavras.
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