Perdas
Primeiro perdi minha tia, em um acidente de carro. Eu fui a última pessoa com quem ela falou antes de sair; em meados de 2000 ou 2001
Minha tia, cuidadora, mãe do dia a dia. Quem me viu andar e trocar a dentição de leite... Se foi as vésperas do natal que ela tanto ansiava chegar, preparava-o com tanto carinho. Interrompido por um traumatismo craniano e encéfalico.
Acho que por voltar de 2006/7, eu perdi minha avó de santo, que me doeu mais do que a morte das minhas duas avós co-sanguíneas, a por parte de pai e de mãe.
Perdi a Pituca e a minha Miúcha.
Depois foi a vez de perder minha família de santo. Inteirinha. Da cabeça aos pés. Da mãe de santo às irmãs de giras. Escorreram por entre fofocas e ausências, de diálogos e de espectativas. Perdi o chão, o norte e metade do que fiz dos anos da minha vida, dedicada a pessoas que achei me viveria comigo até a velhice. Nessas, perdi também um afilhado. Tão amado e querido quanto meu filho.
E por falar em filho, perdi 2 gestações, 3 membro mortos antes dos 3 meses. Uma gestação de gêmeos e depois, em 2018, um aborto retino. A pior dor que já senti em toda a minha vida.
Perdi amigos
Perdi grupo escoteiro
Perdi mais integrantes da minha família para novos integrantes parasitas.
Em outras palavras, perdi o meu primo de infância, que NUNCA MAIS eu desejo ver pela frente depois da última que ele me fez.
Perdi covens e projetos ditos como genuínos nós relacionamentos e ambientes seguros; até dobrarem a esquina. Perdi minhas sorellas.
Perdi companhias. E ainda fui tachada de chata e persona no grata por mais de uma vez.
Agora, no ano passado, quis a vida que eu perdesse minha mãe. Tão fora da hora do combinado. Ainda envolta em tanto sofrimento. Tanta coisa que não deu tempo. Ela sim, queria a cada minuto viver mais do que a própria vida.
Justo ela. Meio mãe, meio filha. Sempre irmã, cúmplice, confidente e amiga. Partiu sem me ensinar a viver num mundo sem ela. Sem deixar o que queria escrito. Simplesmente não quis mais deixar minha avó esperando pra tomar café.
Aí veio um culto familiar, como parte do que herdamos de nossa umbanda.... e do jeito que ela veio, no mesmo de repente ela se foi. O caminho trilhado a 5 passos, retirou dois para que eles se transformasse em 6. Mas até lá, perdi minha umbanda.
Perdi onde deixar meu filho para buscar terreiros que pudessem cuidar de mim.
Perdi o conceito de 20 anos de uma umbanda embranquecida para resignificá-la de modo mais honesta.
Mas, depois de tudo o que o 1º ano do sacerdócio nos tirou, agora que sai; não ficou nada no lugar.
E a esperança de servir para algo, alguém ou alguma coisa nessa vida; enfim, também se foi.
Descobri que - nesse interim - perdi o amor próprio e minha personalidade.
Perdi medidas, perdi um guarda-roupa inteiro, perdi a mobilidade do joelho direito. Com isso, perco o fôlego fácil. Perco disposição e a possibilidade de recorrer a atividades físicas, por menor que fosse o impacto, por conta do peso sobre ambos os joelhos
Aí não deu mais jeito...
Perdi a capacidade de ACREDITAR!
Em mim, em uma melhora no meu quadro clínico e nos poucos amigos que ainda me restam, ocupados com suas (novas!) famílias.
Perdi para, aparentemente, mais achar a concentração para ler livros, um hábito que eu adorava. E, aparentemente, estou perdendo a vontade de jogar joguinhos no celular.
Até que está semana, eu consegui perder a pior parte disso tudo: a chance, a oportunidades de auto extermínio, suicídio
Perdi.
E "só" o que tenho agora é uma casa inventariada, metade minha, metade do meu irmão
Meu marido que diz ter feito de mim a sua jornada. Mas que, talvez, a única coisa boa que eu tenha servido foi deixar pra ele este menino lindo, esperto e fabuloso. Um teto. Uma cuidadora. Além de uma gama peso nas costas para carregar, por mim..até ter seus dentes dilacerados por isso.
Tá, também dei a ele animais, plantas. Quem sabe uma nova perspectiva de futuro. Revolucriar; Revoluciplantar, como todo bom filho de marte: agricultor.
Que dão muito mais conta da alegria do dia dele do que o que eu, neste estado, jamais daria.
Perdi. E continuo perdendo.
Até um dia conseguir não errar mais o alvo e por fim a todo esse sofrimento
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