A Letra Escarlate

Hoje quero falar um pouco do ontem, hoje e o pra sempre!


Eu fui um bebê muito prematuro. Em 1982, fui o recém-nascido com maior prematuridade registrada até então. Nasci com 5 meses e 3 semanas: 23 semanas de gestação. Em outras palavras, posso dizer que fui uma sobrevivente

Claro que raridades como essa não passam incólume. Nasci sem pleura no pulmão, com uma forte deficiência respiratória, muito magra, passei praticamente 3 meses na encubadeira para ganhar peso e resistência física. Media o tamanho de uma caneta bic de estatura. Minha mãe conta que meu corpo cabia inteiro na palma de sua mão. Por isso e por uma série de outros fatores exógenos, ao longo dos meus 32 anos, sempre padeci de uma série de enfermidades: bronquite, rinite, sinusite, 


arcada dentária pequena para os dentes permanentes, mordida cruzada, respiração bucal, desvio de septo nasal, adenóide e carne esponjosa no nariz, astigmatismo (herança genética), 


fragilidade óssea (engessei 4 vezes a perna e 5 o braço por luxações, trincas e estiramento de ligamentos) e escoliose. Além da tendinite adquirida com a profissão (jornalismo), o bruxismo e a disfusão da ATM adquiridas com a idade, a gastrite com os nervosos da vida, labirintite leve e por fim, que eu me lembra, alguns quadros de leve, moderado a grave de síndrome do pânico e depressão crônica. Até minha gravidez  foi uma gestação de risco: 


encurtamento do colo do útero. Longos 7 meses da cama para o sofá e do sofá pra cama, cheia de medicamentos e cólicas. Muito enjôo, mal estar. Parto delicado, com o bebê todo enrolado no cordão umbilical (pelo pescoço, pelo ombro esquerdo e, por fim, um tal de nó real que a minha Obstetra, que coleciona mais de mil partos em sua trajetória médica, só tinha visto uma vez! Comigo foi a segunda, foco de curiosidade de todo o corpo especializado na sala de cirurgia da cesariana, no momento do parto. E que seria, segundo pesquisa do meu marido, responsável por 97% de óbitos fetal. Aí veio mais uma crise de pânico e depressão pós parto. Um ano e dez meses de extrema dor e sofrimento. 


Até chegarmos em 2014 e eu estar aqui, na frente do meu querido blog, narrando essa trajetória durante a manutenção do tratamento psicológico e psiquiátrico e retomada dos meus tratamentos de tendinite e dentário. A tendinite do punho direito subiu para o cotovelo. A minha arcada, hoje com os dentes permanentes, mesmo depois de 7 anos de ortodontia, tem 7 pontos de perda óssea, uma periondontite crítica, pelo menos 3 focos graves de canal comprometidos até a raiz e uma severa infecção bacteriana generalizada na boca. AH sim, devo dizer: ainda não morri!!! Logo, acho que, em outras palavras, posso dizer que sou uma sobrevivente


Logo, passei boa parte da infância e da adolescente a margem de todo o desenvolvimento social que a prática de esporte e atividades físicas promovem por inclusão. Em contrapartida, reservava-me as atividades seguras, como as artes e a leitura. Era a CDF da turma. E a dodóizinha também! Fiz GRD (ginástica rítmica e dança), teatro e grupos de redação e de livros. Tratei, por muito tempo, minha fragilidade óssea com fisioterapia e RPG. 


Hoje me dedico a Quiropraxia. O bruxismo e a dor da ATM eu passo a base de paracetamol ou ibuprofeno. A gastrite, a base de omeoprazol. E claro, não me separo dos meus fiéis companheiros, que NUNCA me deixaram na mão: a bombinha de aerolin spray para asmáticos e o xarope de celestamine para alérgicos, como eu. Minha gestação foi salva pela boa resposta do meu organismo a Inibina (não precisei de circlagem; aquela cirurgia que costura o útero), muita vitamina e inalação. E finalmente, os quadros psiquiátricos se estabilizaram hoje com muito antidepressivo, antipsicótico e benzodiazepínicos. Resultado: acredito que não há males que não possam ser enfrentados, seja na busca de uma cura, seja na aquisição de uma estabilidade e controle para uma melhor qualidade de vida. 


Sofri limitações na infância? MUITAS! 
Padeci de exclusão e gozação na adolescência? DEMAIS!
Amadureci para a vida adulta repleta de traumas e cicatrizes? INÚMERAS!

Mas estou aqui. Sobrevivendo...
E listei tudo isso, não para construir um muro de lamentações, menos ainda para servir de estímulo motivacional para pessoas que por ventura se identificarem com o meu relato. De verdade, não me considero um exemplo de sucesso, nem de fracasso. Apenas sobrevivo! Como você e milhares de pessoas pelo mundo a fora, cada qual com suas próprias dificuldades e limitações. As minhas não são e nem foram melhores, piores, menores ou maiores do que as de ninguém por conta do meu histórico de vida. Não faço esse tipo de juízo de valores. Apenas aprendi a identificá-las, conhecê-las e, a partir dai, como sempre diz minha psicóloga, busco caminhos. E tudo bem. Sou plena e feliz assim. 


Isto posto, e o futuro? O tal pra sempre que iremos encontrar?
Oras, como dizem os sábios, o futuro é o imponderável. A Deus pertence! Tenho consciência disso. 

Mas no cerne, no âmago, no centro principal de toda essa reflexão sobre sobrevivência, lutas e limitações, constatei recentemente que só uma coisa podemos afirmar do futuro: ele não virá sem nossas marcas!!!!


Minha prematuridade marcou toda saga das minha questões de saúde e debilidades.

Meus dentes e respiração marcou meu modo de falar, comer e me relacionar.
A fragilidade óssea marcou minha constituição física.

Os caminhos que escolhi a partir dai marcaram o que me tornei a posteriori.
Como a sobrecarga nervosa que marcou meu estômago com uma gastrite.
Como a redação, a escrita, o jornalismo que marcaram meu pulso com uma tendinite.

A tensão da vida adulta que marcou minha mandíbula no morder do bruxismo.

O encurtamento do colo do útero que marcou minha capacidade de segurar uma gestação.

Até aí, ok! Quem não traz seu estigmas?! Faz parte da vida. Nos torna únicos. 


Só que de tudo, tudo mesmo, a marca mais severa e intrínseca em mim, talhada no físico, psíquico e no espiritual é o estereótipo que se consolidou com a dor, o medo, a banalização ou generalizações. Explico: pelo meu histórico físico, sou frequentemente taxada de frágil, sem resistência, incapaz. Pelo meu histórico psíquico (e reconheço que até por amor), sou frequentemente 'poupada' ou preservada das coisas e situações tais como elas são, por julgarem que eu não tenho estrutura emocional para lidar com a realidade dos fatos. Pela minha trajetória e atual escolha espiritual, frequentemente sou discriminada em minhas crenças e concepções de mundo.


E, finalmente, a pior de todas as prisões: a gestação difícil e a dura marca da depressão. Mesmo tendo conseguido colocar meu filho no mundo com 39 semanas, mesmo não ter me matado nas inúmeras predisposições suicidas que tive ao longo desses 22 meses e mesmo tendo me estabilizado nos últimos 60 dias... Ainda sim eu trago a marca do ex-presidiário. Ou do ex-dependente químico. A quem não se pode confiar por medo da reincidência. A quem não se deve oferecer uma chance para não correr o risco de novamente se machucar (a si mesmo e aos que estão ao redor). Por banalizarem seu mérito conquistado a custo de tanto esforço e lágrima, sacrifícios e resignação, como se fosse apenas o cumprimento do "certo", daquilo que não fazemos mais do que nossa suposta obrigação. Por sermos alvos de inúmeros máximas e frases preconcebidas no bojo das generalizações. 

Assim, de hoje em diante, e para todo sempre, serei "aquela que poderá se acamar por qualquer vã tristeza", a ponto de querer se matar por nada. Serei sempre a que "mal consegue dar conta de um filho", que poderá perder um filho "por não ser capaz de segurar uma gestação". Serei sempre a que "se estressa à toa" com tudo, a ponto de carregar uma gastrite nervosa e uma tensão mandíbular. A "fraca" que pode fraturar um osso a qualquer momento. A que "pode deixar algo importante cair" por uma inflamação crônica nos tendões. E, por fim, a que "não tem resistência ou fôlego" por conta de suas dificuldades respiratórias.


Juro... Estou farta dessas colocações!!! Cheguei a exaustão de tanto ouvir esse tipo de coisa. De ser subjulgada por minhas limitações que, ainda sim, não são estanques ou intransponíveis!!! Não agüento mais ser condenada previamente, antes mesmo de cometer um delito, só pelos antecedentes "criminais". Será que a isso sobreviverei?!

Sinceramente, não sei!!!
Já batalhei tanto para chegar até aqui. Já desenvolvi inúmeras alternativas às restrições que, infelizmente, fui e sou obrigada a lidar. Já fui testada em tantas crises, surtos e provações. Já aprendi a me contentar com as substituições aos padrões sociais que não fui capaz de alcançar. Já reformulei metas, projetos de vida. Já sacrifiquei sonhos. Já engoli meu ego. Já matei, morri e nasci e renasci inúmeras vezes. E até bem pouco tempo atrás, tinha orgulho disso. De mim e minhas marcas. Sentia-me muito mais realizada tão somente por ainda existir, por não sucumbir, por ter sobrevivido do que qualquer conquista instituída pela sociedade.

Agora não! Agora, essas marcas parecem latejar diante das pessoas ao meu redor (principalmente as que eu amo e me amam!!) ao mínimo "e se". Cheguei a um ponto que não deu mais para me blindar da escura sombra sinistra do eminente. Sinto-me como Hester Prynne sendo escoltada da prisão, carregando um bebê no colo e com a letra escarlate "A" no peito. "A" de adúltera bordado em cores vermelhas em suas roupas, como símbolo de sua vergonha perante a sociedade local.


Será que há vida após a vida? 
Será que sou mesmo capaz de sobreviver com todas essas marcas?
Que tipo de chance poderei ter com esse imenso "A" bordado no peito?

Quem me dera
Ao menos uma vez
Ter de volta todo o ouro
Que entreguei a quem
Conseguiu me convencer
Que era prova de amizade
Se alguém levasse embora
Até o que eu não tinha

Quem me dera
Ao menos uma vez
Esquecer que acreditei
Que era por brincadeira
Que se cortava sempre
Um pano-de-chão
De linho nobre e pura seda

Quem me dera
Ao menos uma vez
Explicar o que ninguém
Consegue entender:
Que o que aconteceu
Ainda está por vir
E o futuro não é mais
Como era antigamente.

(legião urbana - índios)

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