Culpa

Culpa... O mais dilacerante sentimento!
Culpa... Que me consome e me assola por dentro!
Culpa... Por tudo ter sido assim.
Por não ter vivido o que era para ter sido de mim!

Culpa... Companhia que não dá pra ignorar!
Culpa... Que insiste em me responsabilizar!
Culpa... Por tantas falências de mim.
A que não foi mãe, nem mulher, nem nada!

Culpa sim!
Culpa de tudo o que foi feito disso aqui.
Mil sonhos, mil tombos, todos esfolados sem fim!
Culpa até de sobreviver, de ousar me refazer e nada ter...

Hoje, tudo que sei tem o gosto de um triste lamento.
Lamento por não ter sido forte o suficiente para ter encarado as mudanças que vieram por aí...
Lamento por não ter sido mulher para desempenhar os papéis que a nós são reservados...
Lamento por não ter cumprido tudo aquilo que eu mesma me propús viver...
Lamento por toda dor e sofrimento, preocupação e desalento que fiz você sentir...
Lamento por ter te colocado nesse estado de alerta por tanto tempo a te assombrar...
Lamento por ainda sentir os efeitos disso em seu estado de espírito...
Lamento por nunca mais poder reassumir os locais onde eu deveria estar
(...por mais que eu me esforce, por mais que eu tente...)

Eu lamento tanto, lamento mesmo, lamento vasto e profundo.
O seu cansaço, seu esgotamento, seus limites.
E mais ainda por tudo o que ainda nem sei e nem saberei um dia.
De ti, do Davi e até de mim.

Você diz que passamos o que temos que passar,
Mas mais que isso, só respondemos a Lei Maior do Senhor da Justiça:
"Quem deve paga..."
Eu mereci, mereço! E pra sempre merecerei...
Prestar essas contas, acertas meus débitos com essa Justiça Divina.
E responder por muito mais do que só o mal que causei a mim mesma.
Responder pelo pior mal que alguém é capaz de cometer:
O mal daqueles que mais amamos!

Penso na barra que você passou.
E dói só de tentar imaginar a barra que deve ter sido para o nosso pequenininho.
E saiba que esse sentimento é maior e mais poderoso, gigantesco do que tudo o que já senti.
Acho até que é tão maior ou proporcional ao dois amores maiores do mundo somados!
Aquele que sinto por você e por nosso filho, juntos!

Não sei lidar com tamanha culpa, com essa dor monstra a me destruir por inteira.
Confesso que esta semana fui absolutamente devastada, 
Todo réles cantinho que com suor lutei nos últimos meses para erguer foram ruindo, despencando ladeira abaixo, de um jeito tão veroz, avassalador que não deu para evitar. Foi como aquela onda gigante que caiu arrastando tudo o que vinha pela frente. Um tsunami de sofrimento e dor.

Percebi o inevitável, o irreparável, o indissolúvel e indiscutível.
A Letra, A Marca, A Sina a qual NUNCA MAIS - sem exageros ou fatalismo! - mas que certamente NUNCA MAIS deixará de existir: o que houve não morreu e não morrerá nunca!! Não pertence tão somente a um passado que se pode guardar em um baú de recordações. Será para sempre minha sombra, meu castigo, minha culpa por tudo o que padecemos ao longo desses um ano e dez meses. A adúltera, a ex presidiária, a ex dependente química, a ex alcoólatra, a ex mãe, ex esposa, ex aquilo que já tanto amou um dia. Pra você e para o nosso filho, inegavelmente, haverá sempre um rescaldo, um resquício, uma seqüela que não cicatrizará, nem com todo o tempo do mundo.

E eu me culpo por isso. 
E lamento...

Percorro alucinadamente, por todos os lados, uma chance, um único caminho se quer para uma redenção que jamais virá. Eu busco um perdão que nem eu mesma consigo me dar! Uma cura justamente para aquilo que não tem como tratar!! E, com isso, eu sou obrigada a dizer... Não sei lidar. Não sei o que posso ou devo fazer. Não sei se há alguma forma de amenizar a pena. Aliviar o peso. Minimizar os danos. Será que dá?!?

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