Ritos de passagem

Fato: sou feita de ritos... E de muitas passagens...



Em toda a minha vida, sempre me liguei de modo intenso aos meus momentos de ritos de passagens. Quando, determinados momentos, eventualmente não convencionais, marcavam algum divisor de águas na minha trajetória. Eu sabia que estava prestes a viver um rito de passagem quando sentia dentro de mim que antes dessa determinada vivência, algumas coisas começavam a se desintegrar, esvair, perecer... E de tal forma e com tanta força que, após a tal ocasião, eu percebia que jamais seria o que já tinha sido um dia.

Era o velho abrindo espaço para o novo!

Exatamente agora... Com a aproximação da minha coroação como filha de santo de Umbanda Sagrada. E dessa vez, o movimento foi grande: primeiro pipocou as marcas e sequelas de quem sai das profundezas de um grande mar sem fim (no meu caso, a Depressão Pós Parto). Ao mesmo tempo que imperava a quitação frenética de uma lista interminável de pendências abertas desde então. Seria a minha prestação de contas, meu balanço burocrático e financeiro... Que viria cobrar o seu cunhão (documentação atrasadas, impostos vencidos, contratos em aberto, juros de juros rolando sob efeito dominó e por aí em diante). Em seguida, foi a vez do corpo reclamar o que também era seu por direito: ginecologia, ortopedia, fisioterapia, quiropraxia, alergista, oftalmologista, endocrinologista, otorrinolaringologista, pneumologista, gastro, dentista e uma série de exames laboratoriais, medicação e tratamentos em geral. Check-up TOTAL! Sem abandonar, naturalmente, a terapia e a psiquiatria.



Nos bastidores dessa novela, circulava meu retorno (ou, pelo menos a tentativa de retornar...) ao mercado de trabalho. Ao lado da satisfação e necessidade de cuidar da minha casa. E lá vieram os vasos de plantas abandonados, luzes queimadas, roupas e espalhadas, objetos fora do lugar, documentos perdidos, pilhas que acabavam, encanamentos quebrados, eletrodomésticos que simplesmente davam PT, mesas de vidro estilhaçadas, armários em desordem e por aí vai. 

E, por fim, no suporte técnico de todo o espetáculo, a atenção imperiosa no trato com meus vínculos afetivos e compromissos espirituais. Urgia a necessidade de cuidar dos meus relacionamentos mais queridos. Assim como era latente o gradativo atendimento a todas as minha obrigações como umbandista, helênica, strega e taróloga. Foi nessa tacada que elos tão preciosos para mim foram postos a prova. Para que todo o ranço, toda sujeira, todo o abalo desse longo e tenebroso inverno na minha vida se dissolvessem. Minguasse! Na mesma proporção que todos os oráculos, ofícios, deuses, santos, guias, mentores, anjos e arcanjos e orixás passassem a me exigir suas devidas atenções.



Essa é a atual fase da minha vida: véspera da minha coroação como filha de santo, quando completo 4 anos de casada, 5 de relacionamento com o Homem da minha vida, 2 anos desde o nascimento do meu filho, 49 meses de inquilinato, 12 anos de carreira, 16 anos de paganismo, 11 na Umbanda... 3 meses e 1 dia de real estabilização da doença, sem recaídas ou intercorrências. Nesse exato instante sinto que jamais serei o que já fui um dia...

http://youtu.be/QfPjsbjkYqw

Niente di ciò che verrà domani
Sarà com'è già stato ieri
Tutto passa tutto sempre passerà
La vita, come un'onda come il mare
In un va e viene infinito 
Quel che poi vedremo è
Diverso da ciò che abbiamo visto ieri
Tutto cambia, il tempo tutto nel mondo 
Non serve a niente fuggire
Nè mentire a se stesso
Amore, se hai ancora un posto nel cuore
Mi ci tuffo dentro
Come fa un'onda nel mare



(Wave/Come Fa Un'onda - Renato Russo - CD Equilíbrio Fistante)

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