Sem poder falar...

Ao que tudo indica, na último segunda, eu tive um evento muito estressor que me levou a uma situação "relativamente" habitual em autistas: o mudismo.

Meu olhar era de prostração. Minhas pregas vocais pareciam estar coladas. A sensação era de glote fechada, mas sem afogamento. Era uma mudez. Você quer falar, você quer se expressar, mas a voz não sai

O desespero aumenta quando você se dá conta que não é apenas com alguma(s) ou alguma(s) situação. Minha mãe contava que meu irmão reprovou um ano no ensino fundamental - anos iniciais - porque logo após a separação dos meus pais, ele - meu irmão - resolveu passar um ano sem falar no colégio. Falava em casa, amigos da rua e familiares. Mas não falava na escola.

Eu compreendo que ver seu pai saindo de casa com outra mulher, levando todos os seus pertences, quando se tem 7 anos de idade; claro, evidentemente é um evento pra uma reação adversa assim ou até pior. Também lembro da minha mãe contar que naquela noite, meu irmão chorou madrugada todinha no colo dela.

Bem, meu irmão não é autista (até onde se sabe). Mas eu sou. E sempre fui muito falante. Passar, mais uma vez, por um desrespeito em recepção de clínica médica porque o especialista cancela agenda - marcada há quase 2 meses - não é nenhuma catástrofe. Exceto quando se trata da 4ª tentativa de achar um profissional decente para cuidar do seu marido que - graças a você e seu filho - é seu único nível de suporte (e, como tal, a exaustão e seu nível de comprometimento de sua saúde mental é nítido e notório).

Mas ok, ainda sim, para uma falante fluente na língua portuguesa, com 41 anos de idade... isso é apavorante e assustador. 

-----> Porque eu preciso falar para dar recomendações domésticas.
-----> Porque eu tenho que verificar com o meu filho como foi a aula, se ele tem lição de casa.
-----> Porque estou em tratamento psiquiátrico, em regime de HD; onde há psicoeducação, terapia em grupo e arteterapia 
-----> Porque eu faço terapia (a ideia é subir para 2x por semana, nessa fase mais dura... e não estou conseguindo)
-----> Porque eu tinha nutricionista agendado; neurologista de um grupo de dor da Rede Dor, ginecologista
-----> Porque existe toda uma gerência financeira que depende de mim cuidá-la, ao lado do meu marido. Verificar o que dá ou não para pagar. O que vamos priorizar e o que vamos postergar.

Além disso, "em tese" entrar novamente para a CAIXA (INSS) é melhor do que ficar sem receber.

"Em teoria", eu me inscrevi numa.pos graduação online em Educação Especial que eu podeia estar me dedicando.

E aí eu te pergunto?
Pra quê?
Por quê?

Fui silenciada - já pela minha família que, toda vez que eu dizia como eu me sentia, eu já era dita e vista como a vitimizada. A que faz um drama desnecessário. Alguém a quem vale a pena ouvir

Fui silenciada INÚMERAS VEZEZ pelo próprio pai, por atitudes dele machistas e misóginas; alguém que não quero nem perto

Sou silenciada pela parte kardecista da minha família por ser de umbanda. Um abismo que eu percebi que pode ser maior do que com os católicos

Fui silenciada centenas de vezes nos períodos em que dei expediente de trabalho na Eurofarma. E, mais agora, sabendo que o Instituto não tem política para PCD; minh'alma emudeceu

Não há o que eu faça ou o que eu diga que mude/ agilize o processo judicial pelo ATE do Davi (e já estamos nas portas de outubro).

Não há o que eu faça ou o que eu diga que mude/ agilize o processo judicial da seguradora do nosso único carro que, a partir do ano que vem, deixa de ser o nosso ganha pão porque os aplicativos de motorista vão considerar o automóvel "velho" (mais de 10 anos)

Não há o que eu faça ou o que eu diga que mude/ agilize o processo judicial do inventário do Roberto ou da minha mãe. Só sei que sustentar essa casa só com a nossa renda + bichos + uma moça que faz serviços domésticos está ficando impossível.

Não há nada que eu faça ou eu diga que traga de volta a segurança que meu filho tinha comigo depois da depressão pós parto e que agora, ele deixou de ter. Só fica em casa se for com o pai. Só sai também se for com ele. De mim, ele já não demonstra precisar de mais nada. Só um carinho/ carência que eu vejo ele se suprir de forma idêntica a cachorrinha que a minha mãe nos deixou. Então, ok. O combo Neusa, Daniel e "Cori" ao Davi parece dar bem conta do recado. Junto com sua rotina rígida de desenho, rede, quarto ou celular.

Sim, sou uma mulher, cis 
Tenho 41 anos
1 diploma universitário (tenho quase um 2º diploma em Ensino Superior)
1 iniciação científica 
1 meia pós graduação em RP
Sou instrutora de yoga, manicure
Casada com quem amo muito
E mãe de uma criança autista

E..... nesse momento.... juro que não tenho mais nada que eu consigo ver, que esteja ao meu alcance (e que eu acredite!!!) que - vejam só vocês, que metafórico - me dê um só motivo para falar.

Coincidência?
Não sei!

Surpresa?
Nenhuma!

Os dias passam e eu fico aqui, no quarto, de camisola, em frente a um ventilador; em meio a joguinhos de celular, H2OH e sequilhinhos... sentindo como se, cada instante que passa, eu sou mais um pouco absorvida por uma imensa areia movediça... a espera que algo ou alguém me lance uma corda, um pedaço de pau... QQ coisa que me devolva um fiozinho de espera.

E hoje, 19/09, ainda é mês de setembro amarelo 🎗️

Ligo para o CVV.
Não dá, né?
Sem voz, como falar?

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