(dia 1)_tudo junto e misturado
Ontem, uma pessoa que só queria me ajudar me deu uma tarefa: escrever um diário, nos moldes mais tradicionais possível: hoje eu acordei, fiz A, B, C... Senti X, Y, Z... Como se eu fosse ainda aquela adolescente de 13 anos que montava agenda e cadernos de enquetes.
Mas não sou e, mesmo assim, não sei bem ao certo se dou conta da nobreza de tal tarefa. Acho que, quando somos crianças e, até um certo ponto, adolescentes, nutrimos menos tocado pela sociedade e suas convenções e protocolos uma pureza de natureza. Basta olhar para dentro e a janela que reflete nossos sentimentos está límpida como água.
Com o tempo, o vidro enche de pó. Na correria da vida, vamos só batendo um paninho e, chega uma hora, que nem detergente e palha de aço desengordura mágoas e ressentimentos.
Hoje, acordei cedo...coisa rara nos últimos dias. Reunião na escola do Davi, foi só o pai. Eu, por conta do joelho, fiquei (e, ainda por cima, uma cólica típica de monstruação!); mas, ainda sim, ajudei a acordar o Davi para a aula, a se arrumar.
Só que depois que os dois foram embora, a verdade é que não consegui voltar a dormir. Achei que podia escrever para a minha mãe sobre a investigação (quase certa!) de que eu também tenho autismo. Sentei em frente ao computador e não consegui: procrastinei.
O Dan chegou. Falamos da reunião do Davi. Depois fomos assistir The Boys (a essas alturas, a cólica já estava nas alturas e eu, hemorrágica com o fluxo). Ele, coitado, cansado. Exausto! Só ficamos nos colchões da sala, por ali, assistindo série.
Na hora do almoço, pedimos um Marmitex. O tempo de comer e dar a hora de buscar o Davi na escola já esticou mais 2 episódios. No fim do dia, lidamos com o olhar e a desaprovação da Neusa, a cuidadora da minha mãe, pela casa por aquilo que sei lá o que ela achava que nós dois deveríamos estar fazendo "se tivéssemos vergonha na cara".
Só que, para a convenção social, provavelmente, nós não temos. Aonde é que já se viu, dois adultos, 40 anos nas costas, em casa, vendo TV, numa terça útil?
Depois o Davi chegou. Fui tentando me ocupar de qualquer bobeira no telefone. Até tomarmos um café da tarde e render mais 2 episódios de série. Não jantamos. Afinal, nem teria o que jantar. A fome, matamos com cereal matinal. Enquanto isso, um turbilhão de coisas, todas juntas e misturadas pareciam me corroer por dentro.
Escrevi para o meu psiquiatra. Falei um pouco dos últimos dias e aproveitei para pedir minhas receitas controladas deste mês. Pesquisei stimtoy para ver se já fazia uma compra para o Davi e para mim. Ele precisa lidar melhor com alguna processos pessoais que os utensílios poderiam ajudá-lo; enquanto eu, aproveitei para ver se colocava fé em algo para mim. Algo que desse conta de aliviar ao menos um pouco minhas gasturas.
A verdade é que está duro mesmo esperar pelo meu laudo. A ansiedade está me consumindo. Não durmo, quase não como direito. Vivo a base de medicação forte para dor de tanta tensão. Aí é pernas inquietas para um lado, mandíbula e cervical travados do outro. A mente que pensa em autoregulagens autodestrutivas. Quero me morder, quero me cortar... Aí me coço para ver se passa, mas lembro que as unhas estão curtas para não me arranhar. A mente voa querendo uma tesoura para cortar amadora e loucamente meu cabelo. Qualquer coisa que desse conta de externar tanta aflição.
Seja ela pela espera do laudo
Seja pela espera da consulta do Davi na neuropediatra semana que vem. Seja até pela espera da alta hospitalar da minha mãe.
E ao mesmo tempo em que eu quero que esses momentos cheguem logo, por outro, o estômago até gela de medo só de pensar em voltar a trabalhar. Em fazer a rematrícula da faculdade. E até de pensar em INSS.
Aí lembro os perrengues de grana
Lembro que não tenho prestado ainda para sentir a firmeza nas pernas que dessem conta de um serviço doméstico. Não tenho cabeça para ler. Não acredito mais nas minhas medicações e nem de que as coisas vão melhorar.
Quero voltar para a casa dos fundos, para nossas coisas, nossa cama e nossos gatos; mas sozinha, não dou conta de arrumar o que precisa para irmos para lá. A casa da frente parece tb sugar toda e qualquer pingo de energia que circule em nossas veias, de tão densa que é a vibe daqui.
Não sei o que pensar, nem o que dizer. Menos ainda o que fazer, por onde começar. É como atolar em uma areia movediça. Quanto mais você se debate, mais afunda.
Temo por mim, por minha integridade física e pelo último fio de decepção que ainda não cedi: meu filho e meu marido. Quero acreditar por eles, por nós. Peço mentalmente força aos meus guias, santos e orixás, chefes de falange e seus comandados. Clamo por minha ancestralidade cosanguínea e afetiva. Penso a cada minuto na minha tia materna e avó de santo falecidas...
... Ao mesmo tempo que vem junto, de brinde, o sentimento de desamparo aprendido e do abandono em vida. Daqueles que poderiam fazer por onde, mas não fazem. E nem nunca farão, porque não é delas. Não fizeram antes, não teriam o porque fazer agora.
Seria exaustão?
Confusão?
Depressão?
Quem é que sabe?
Já não sei mais sentir
Já não sei mais distinguir.
Também nem faço questão de insistir.
Quanto mais sou capaz de suportar meus dias assim?
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