O que o neurotípico espera da gente.
Cansada
Perdida
Sem forças
Sem perspectivas
Diz o antigo ditado da sabedoria popular que "a ignorância é uma benção"
E, quer saber?
O povo sabe das coisas.
Eu achava que uma avaliação diagnóstica profunda, ainda que tardia, ia me ajudar a me organizar, a dar assertividade após 20 anos de terapia e tratamentos psiquiátricos.
Mas agora que essa clareza está vindo, eu já não sei mais.
Na faculdade (2003), tudo indicava que era pânico. Depois veio a catapora (2006). Agressão física e psicológica no meu TCC.
Aí veio o tal processo da pensão alimentícia e a 2ª crise de depressão clínica (a 1ª - em 2000 - veio quando perdi um grande amor para sua autodescoberta homossexual; logo após um falso positivo de um teste de HIV, com 19 anos (2001)... No ano seguinte ao episódio grotesco do acidente de carro do meu pai e todo o caos que foi minha 1ª tentativa de vestibular e 1º ano de cursinho).
Anos depois, 2010, veio meu casamento, 2012 nasceu meu filho. Junto, a depressão pós parto. A experiência mais doída que uma mãe pode sentir. Um ano e 7/8 meses para acertar a medicação + Dois anos para estabilizar + um de manutenção.
Quando eu achei que viria a remissão, o golpe de perder minha família de santo.
O ano era 2017, eu vi 16 dos meus 36 anos indo embora do jeito mais triste que eu podia imaginar, enquanto acompanhava a minha mãe - o máximo que eu pude - em 9 meses de internação do meu padrasto.
Veio a 4ª crise depressiva e um pseudo diagnóstico de Transtorno Depressivo Recorrente. Junto com uma literatura médica que provisiona as crises. Escalona a probabilidade de novas crises, conforme a quantidade de crises anteriores.
2018, veio a 2ª faculdade.
Com ela, a orientação da tutoria academia para buscar investigar TDAH. E a perspectiva de reescrever uma história que nem o jornalismo, nem as Relações Públicas deram conta de contar.
2019
A piora efetiva do quadro clínico da minha mãe. Quando ela passou a precisar de oxigenioterapia, direto, 24hrs, por dia. Às portas de uma pandemia de covid.
2020
Mais uma crise severa depressiva. Meu marido e eu desempregado. Filho em processo de alfabetização interrompido pela pandemia. Nada diferente do que muitos brasileiros viveram. Depender de cesta básica - que graças a Deus, não faltou - e doação de amigos.
2021
Um tumulto atrás do outro.
Assalto a mão armada. Moléstia sexual. Estresse pós-traumático. 19 dias sem dormir 4 horas direto. E o Davi, meu pequeno - quem escutou tudo - sofrendo de trauma junto.
Aí veio a morte do meu padrasto. A mudança de casa. A gestação inesperado. O aborto retido. Dor violenta. Achei que ia morrer. O fim do sonho do meu marido, do meu filho e meu.
2022
Fiz o que pude para juntar todos os caquinhos. Aproveitar a melhor e maior sorte que uma dia eu se quer sonhei que teria. Pedi ajuda, disse a todos como isso era importante para mim (inclusive desde 2021)...
Um mês seguinte, uma queda no caminho da empresa. Acidente de trabalho, rompimento do ligamento do joelho.
O resto...
Já escrevi exaustivamente aqui.
- o projeto de aniversário que não saiu, nem de 40, nem de 10.
- uma comercialização de netos que, quem tem grana manda, quem aguenta a tirania, obedece
- um desarranjo de papelada que me garantia o direito beneficiário por acidente de trabalho, tal como deveria... E que não saiu.
- perda da minha remuneração, da reputação e da consideração das pessoas que esperavam que eu estivesse ao lado dela para desenvolver o meu trabalho.
- uma cirurgia e uma completa frustração com a reabilitação física após a operação. O fracasso dos exercícios que, ao invés de me ajudarem, levaram a minha intercorrência. Edema osso. Degeneração de nervo.
- dois processos de avaliação psicológica (do Davi e minha). Distintas, separadas por quilômetros de investigação (a dele, aqui em SP, a minha, com uma profissional especializada em diagnósticos tardios, da Bahia). Descobrir o Borderline e tudo o que eu tive que mexer do passado, para me entender. Sankofa.
Sankofa ensina a possibilidade de voltar atrás, para realizar o nosso potencial para avançar. Como diz a filosofia africana, "o que quer que seja que tenha sido perdido, esquecido, renunciado ou privado, pode ser reclamado, reavivado, preservado ou perpetuado; para construção de uma auto identidade e redefinição pessoal".
Aprender com o passado para entender o presente e moldar o futuro... Em um único espelho: mãe e filho.
RESULTADO FINAL?
Uma sopa de letrinhas.
Do Davi, esse sim, tem mais chance do que eu. TEA nível 1, sem comprometimento e TDAH. Assim que o laudo sair, é levar para a escola e buscar os direitos dele.
Agora eu??
Meu laudo ainda demora um pouco mais. Mas veio com:
-------> TPB confirmado (Transtorno de Personalidade Borderline - introspectivo)
-------> TDAH confirmado (distúrbio neurobiológico de aprendizado - Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade)
-------> TEA, nível 1 de suporte, sem comprometimento cognitivo; mas repleto de masking/mascaramento social
-------> Ah/sd, que já não seria uma grande novidade; talvez só nomeclatura que carregue o peso de tudo o que eu poderia ter sido, com os estudos que eu tive, com as oportunidades que a vida me deu... E que a tal dupla excepcionalidade (onde a comorbidade apenas leva em consideração as dificuldades que o indivíduo carrega na vida, no desenvolvimento acadêmico e profissional)
-------> Fibromialgia, haja visto que a "sintomatologia bate"... Já não cabe nenhuma explicação a mais.
E agora, cada nova sobrecarga da vida, significa apenas ter um nome para dar as tais crises (meltdown / shutdown) que SEMPRE me acompanharam.
Mas, na prática, muda alguma coisa?
NADA! Tudo o que a minha rede de apoio parece se preocupar é se eu estou "melhor", como quem pode simplesmente sarar de uma gripe.
Se todas esses letrinhas somadas dão nome para o que eu sou, ou para aquilo que a vida fez de mim; eu me pergunto: será que alguém pergunta a quem nasceu com Sindorme de Down, ou para quem passou por uma violência sexual, se passou? Se estão melhores?
Por que, né?
O que importa para essa sociedade é funcionar. Produzir. E, pra isso, 20 anos de medicação serviu. Para não mostrar. Para não incomodar. Para caber no que o neuro típico espera da gente.
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