(dia_qualquer um) O PRIVILÉGIO DA ESCRITA e a DOR QUE SE É VIVIDA

Não escrevo o tal diário que me pediram (veja post anterior) desde então. Não dá, não consigo. Não sobra tempo. O redemoinho que se tornaram as horas e os dias me engolem! Nesse momento, madrugada de sexta (19/08) para sábado (20/08); quase 2h30, escrevo pelo privilégio da escrito, em detrimento aos meus tão poucos horários de sono "que me sobram". Ou é uma coisa, ou é outra; as duas, impossível!!


Minha mãe está numa maré muito difícil mesmo, desde junho, com o covid. Ao ter alta, em julho, foi o furacão família (que, de férias, vinham de todos os cantos: Rio Branco-AC, Brasília-DF e até Londres-UK; contei um pouco sobre isso aqui). No fim, o que nos restou foi uma pneumonia oportunista e, como desgraça pouca é bobagem, uma herpes que virou zoster, que virou nevralgia pós herpética. Só Deus sabe o que tem sido os últimos 10 dias dela, repletos de dor e sofrimento. E eu, aos poucos, vou padecendo junto; fazendo das tripas o meu coração para dar conta - senão de tudo! - ao menos do máximo que é possível: cuidados com medicação, acompanhando ao andar por conta do risco de queda, horários de refeições e consultas médicas. Isso, claro, sem mencionar todas as tentativas de sanar suas vontades: é festa julina, é café para receber as pessoas, é compras, é até salão de beleza. TUDO. Para ver se, com isso, amenizamos de algum modo seu calvário. 

Mas sabe quando tudo não é o bastante? É sobre isso. 😞

O gatilho que me tanto me maltrata. 

Dar tudo de mim em algo e simplesmente não ser o bastante.
----------> TUDO de mim por um vestibular, bem no ano que meu pai sofre um acidente de carro que viria subverter toda a minha vida. 

----------> TUDO por uma formação acadêmica em jornalismo, que viria me colocar em uma síndrome do pânico, catapora aos 24 anos em um apartamento onde morei sozinha, bem no meu ano de TCC. 

----------> TUDO por uma colocação profissional que sempre solava, antes mesmo de crescer; feito bolo que a gente vê abaixar, ao tirar do forno. 

----------> TUDO por relacionamentos que, ou não vinham em mim OU o modelo socialmente perfeitinho que havia em minha prima, OU a orientação sexual em um período de questionamento e redescobertas pessoais; ambos que só de eu ser quem eu sou e era, em cada uma dessas época, obviamente, não serviria.

----------> TUDO por uma estrutura familiar já tão retalhada, desde muito antes de mim e que, só de ver o tanto e o tamanho, não cabiam em minhas pequenas mãos; quando achei que poderia cuidar de tudo em SP para não ter que abrir mão de uma vida que parecia desabrochar para mim dos 20 aos 28 anos (exatamente quando eu mais precisei de suporte e apoio pessoal)

----------> TUDO por duas tão aguardadas gestações que terminaram em abortos (espontâneo e retido)

----------> TUDO por uma chance de trabalho com a minha prima que no fim só restou ressentimento e mágoas.

----------> TUDO por uma convivência harmoniosa e pacífica com a minha segunda família (há de santo) que acabou em fofocas e apunhaladas pelas costas

----------> TUDO por amizades que tanto cultivei e priorizei, embebidas no sagrado manto da sororidade e do sagrado feminino, seja-os místico ou neopagão; até o dia em que eu deixei de ser útil, pois dali em dia, o descarte dos laços se desfez tão fáceis como o desamarrar de um cadarço. Mas eu permaneci lá, largada em algum canto para ser resgatado, quiça, em algum novo momento oportuno. E digo mais, não apenas por essas amizades; mas, por taaaaaaaaaaaaaaaantas que me perdi nas tristezas em contá-las.

E agora, mais recentemente,  TUDO por uma oportunidade de estágio e trabalho que tinha/tem absolutamente TUDO com que eu já sonhei e desejei para mim e para os meus, até hoje, no auge dos meus 40 anos... em vão. TUDO por um projeto de núcleo familiar (minha mãe, sua cuidadora, meu marido, meu filho e eu; com todos os nossos bichos e plantas) que - simplesmente - sorve TUDO o que eu tenho de vida; mas que nem me permite conciliar com o que trago de mais especial na minha trajetória (e que precisam de cuidados como: a minha casa, minhas coisas, meus gatos, minha 2ª graduação e das demandas referentes a reforço escolar e do neurodesenvolvimento do meu filho, ânsias pessoais e sexuais com o meu marido, minha religião e minhas devoções) nem ser suficiente no que se refere as demandas da casa, da saúde da minha mãe e até da minha própria saúde mental.



Transtorno do Espectro Autista (TEA)
: me desregulo e me reconheço em vários pequenos momentos autísticos que, ou me são negados, ou não são por mim devidamente elaborados (ainda!) por anos de masking e total desconhecimento do que me fazia ser diferente do que me diziam e me ensinavam que eu deveria ser.

Transtorno de Personalidade Bordeline (TPB): com certeza, o mais DIFÍCIL de ser conciliados. Principalmente quando vejo pessoas repetirem as mesmíssimas coisas que eu falo para aí ser algo válido. Quando me sinto preterida ou diminuída diante da presença das minhas primas, pois elas sim, são legítimas! Seja pelo conhecimento legitimado em seus trabalhos, seja por suas atuais condições pessoais. Para elas, presentes e créditos. Para elas, a ânsia em recebê-las adequadamente; que justifica tudo, até cair no quarto. 

Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH): me perder entre tantas tarefas a serem executadas ao longo do dia, não sentir sono quando deveria, não poder dormir quando gostaria e ainda sim, fazer mil coisas ao mesmo tempo, enquanto duas mil ficam para traz, onde as demandas parecem ser lances de um imenso leilão de prioridades: leva a minha atenção quem dá mais.

Está duro, está difícil, está pesado.


Hoje, até um cigarro eu acendi, como nos meus velhos tempos de fumante.

Veio como alternativa menos destrutiva (?) do que me cortar para ver se a mente deixa de me massacrar internamente. Tamanho são os abandonos que carrego na alma. Tamanha a minha insatisfação em emendar uma madrugada de um dia após o outro, sem proporcionar para mim uma noite reparadora de sono (seja por impossibilidades técnica de qualquer cuidador com alguém que requer tantos cuidados), nem o conforto que deve ser o sentimento de dever cumprido.

E é por isso que não tenho tido como registrar, tim tim por tim tim, o que tenho feito e o que tenho sentido em cada circunstância do meu dia. Pois qualquer um dos meus últimos 15 dias são repletos de uma dor que se é vivida assim, de forma contínua.



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