Ikigai
Tenho percebido que, ultimamente, o muro que separa a Carol em profundo processo depressivo da Carol que, ainda com o pesar e a dor da depressão, ao menos funciona em estado mínimo (acorda, com 2 a 3 crises de pânico no percurso, ainda vai trabalhar; que se isola de 1 a 2x no banheiro para de morder ou arranhar, mas retornar ao horário de expediente e que, a noite, chega em casa em estafa total) tem cada dia ruído mais.
Parece aquele episódio da 6ª temporada de Supernatural onde, para garantir que Sam não se lembre de seu tempo na jaula com Lúcifer - já que sua alma ainda está lá, Morte bloqueia essa parte da memória de Sam usando uma parede mental.
O que pode parecer uma boa ideia, no decorrer da temporada, acaba sendo uma condição perigosa; pois, por pior que tenha sido a estadia de Sam no inferno, a alma dele é constituída por tudo o que ele viveu... Coisas boas e ruins, traumáticas e magníficas.
No entanto, com a barreira mental, o muro deixa o Sam funcional. Sem emoções, mas também sem aspirações. Sem motivações, mas também sem grandes disposições.
Simplesmente deixa a pessoa sem ter que se preocupar com mais nada e, ao mesmo tempo, sem sentir mais nada também.
Hoje, meu muro é composto por 200mg de succinato de desvenlafaxina monoidratada e 225/300mg de pregabalina; com pinceladas de clonazepam de 1mg e rivotril 0,50mg sublingual; diariamente. Isso, associado a um forte abafador de som e alguns stims toys de vital importância. E, ainda sim, eu percebo que as lascas e rachaduras começam a aparecer.
E não falo das erosões mais nítidas pela manhã, quando eu acordo. Nem quando o sono insiste em demorar pra chegar. Eu me refiro ao tal propósito que nos mantém vivo. A vontade ou pulsão de querer que nos coloca de pé, todos os dias. Os japoneses chamam isso de Ikigai. O termo em japonês carece de uma tradução literal para o português, mas seu significado pode assim ser compreendido como "razão de viver".
"Se temos propósito estamos vendo sentido em nossas vidas e, portanto, facilitamos a gratidão e a resiliência, os dois extremos necessários para o nosso bem-estar", explica Claudia Feitosa-Santana, neurocientista e pós-doutora pela Universidade de Chicago; na reportagem publicada pela UOL, no ano passado (para ler na íntegra, clique aqui)
Quando eu me casei, eu disse ao meu marido: aconteça o que acontecer, eu vou permanecer ao lado da minha mãe até o fim da vida dela.
Mas mesmo tendo um milhão de problemas de saúde; como diria Rolando Boldrin, ela foi antes do combinado. Ela tinha uma reabilitação pulmonar já agendada no Hcor, programada para exatos 3 meses. O tempo necessário para após set-out-nov ela AGORA estivesse fazendo o procedimento das células tronco.
E, agora, com a certeza da vitória do Lula, já teríamos comprado nossas passagens para a posse, em 01 de janeiro. Teríamos, talvez, iniciado um processo de reforma da casa; certamente nada parecido com o que estou fazendo hoje.
Agora, todas as mudanças e reformas atendem necessidades básicas e imediatas.
Os gatos precisam vir pra casa? Então é preciso gatificar
O Davi precisa ter um quarto?
O jeito é desocupar o escritório que minha mãe não usará mais para montar o quarto dele ali, onde ela certamente ia querer.
E eu? Que não subo escada temporariamente e, assim como o Daniel, não tinhamos um local definido para dormir. Solução: montar o nosso quarto no quarto que era da minha mãe.
E o que fazer com uma casa (a minha) que estava lá no fundo e que agora veio inteira para outra casa que ficou pela metade, dilacerada por um processo sofrido e violento de partilha com o meu irmão?
Bom, o melhor que der no momento.
O Dan está pintando a casa, como a minha mãe queria. Estamos cuidando e reformando onde tem umidade. Reforçando o viveiro dos patos e galinhas. Mas ainda há MUUUUUUITO o que fazer.
A reforma do corredor
A finalização das prateleiras da cozinha
Reforma da lavanderia e da churrasqueira
Melhor acomodação da Leia (cachorra do Davi)
Revisão da instalação elétrica dos chuveiros
Arrumação sala, do escritório e dos quartos
E tudo o que eu faço, pelo tudo o que acordo, tudo o que me resta... É o imediato. O passo seguinte. O que surge como mais urgente: pagar uma conta, fazer o mercado, separar as roupas...
... Sem paixão, sem desejo, sem vontade de viver. Com, talvez, meu único propósito: não ter mais nem o luxo da ideação suicida que me corteja, só porque agora meu filho tem idade para saber o que é perder uma mãe. E eu não posso deixar que ele passe agora o que eu estou passando.
Só isso que me resta.
Só isso que me sustenta
Só isso, pelo bem e pelo mal, tem sido o meu Ikigai
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