Abismo
É gozado como existe um ABISMO GIGANTESCO entre aquilo a gente sabe e aquilo que a gente sente.
Sobre meu acidente de trabalho
Eu SEI que isso poderia ter acontecido com qualquer pessoal (sofrer um acidente a caminho do trabalho)
Eu SEI que não havia outra alternativa terapêutica senão a cirurgia
Eu SEI que processos burocráticos de quem depende do INSS para receber são desgastantes (por vezes, até humilhantes)
Eu SEI que eu não tinha outra opção de "ajuste doméstico" senão o abdicar da minha casa, dos meus gatos e da minha cama para passar por esse período na casa térrea da minha mãe; já que, a minha tem escada
Eu SEI que, quando acabar minha licença e eu puder, finalmente, retornar ao trabalho, eu não serei mandada embora; pois, parece que a lei me garante algum tempo de estabilidade
EU SEI DE TUDO ISSO, MAAAAAS...
Eu SINTO que isso que me aconteceu, de algum modo, foi só para me tirar a chance de viver uma das únicas oportunidades de progredir na minha vida profissional.
Eu SINTO que ficar sem andar e sem sentir que consigo sustentar meu corpo sobre minhas pernas foi uma alegoria MUITO FORTE sobre os fracassos que coleciono; que me faz, até hoje, aos 40 anos, ser uma mãe-esposa que mal sustenta suas despesas domésticas e que ainda não anda com suas próprias pernas financeiramente
Eu SINTO que as dificuldades com a minha licença - as que vieram além das esperadas - parecem ser mais desgastantes (por vezes, até humilhantes) porque são comigo!!!
Eu SINTO que abandonei minha casa, meus gatos e até todos cuidados com o meu filho (tarefas que sempre repartir com meu marido e que hoje, estão todos sobrecarregando nas costas dele - talvez isso explique porque ele acordou no fim de semana com as costas travadas!! 😞)
Eu SINTO que não há nada que me garanta que, dessa vez, será diferente de quando eu engravidei. Naquela época, em 2011, eu descobri minha gestação um mês e meio após começar a trabalhar em nova uma agência de comunicação (PUNTO). Até então, minha gravidez não foi recebida como um problema pela minha gestora e dona da agência. Ocorre que, um mês e meio após, descobri que minha gestação era de risco. Fui afastada até o parto. Resultado? No 1° dia após os 6 meses de licença maternidade, eu fui demitida, assim que eu cheguei. Não demorei nem 30 minutos com ela. Peguei um presentinho que ela tinha levado para o bebê, minha coisas e, antes das 10 da manhã, eu já estava em casa.
Sobre algumas questões pessoais
Eu SEI que eu não tinha como prever essas dificuldades todas que hoje eu estou passando, quando prometi ao meu filho (e a mim mesma), há quase 2 anos e meio atrás, que daria a ele o aniversário que ele sonhou, quando ele completasse 10 anos.
Eu SEI que o período em que eu tinha para entregar todos os meus trabalhos da faculdade, no mês passado, foi completamente inviável; pois coincidiu com as minhas três semanas mais difíceis do meu pós operatório.
Eu SEI que passar por uma investigação psicológica, principalmente as tardias, mesmo quando a gente se dispõe a ler, estudar e desmistificar os dogmas da "possível hipótese diagnóstica" não é um processo fácil.
EU SEI DE TUDO ISSO, MAAAAAS...
Eu SINTO que não há nada que eu posso fazer que mude o fato de não conseguir honrar com o que prometi. A investida com o meu pai não deu certo. As alternativas de parcelamentos e empréstimos também não. Até uma força-tarefa desesperada, nos meus últimos 5 dias, que fiz com a minha mãe, para conseguir uma verba extra para ter algum tipo de receita disponível para algum tipo de "celebração" (por mais singela que for possível) parece ser em vão. Está agora na dependência de uma terceira pessoa. Enquanto isso, meu coração se aperta e meu espírito se apequena, diante da possibilidade de que todo esse esforço seja em vão.
Eu SINTO que não estou servindo nem para cumprir com minhas tarefas acadêmicas basais. Logo, que tipo de docente eu espero ser assim?
Eu SINTO que nenhum esclarecimento técnico-científico, nenhuma literatura acadêmica especializada vai dar conta de mudar
------------- a intensidade com que eu sinto tudo ao meu redor;
------------- o modo limítrofe que eu percebo meus sentidos;
------------- minha baixíssima autoestima;
------------- minha necessidade desesperada de me encaixar;
------------- o medo de voltar ao trabalho e ser julgada / ou ser alvo de rejeição pelos meus colegas de trabalho pelo tempo em que eu permaneci de licença; por não estar presente quando a Unidade Educacional mais precisava;
------------- a exaustão diária, quase minuto a minuto, de onde meu marido e eu vamos tirar dinheiro para arcar com todos as nossas pendências financeiras E
------------- este sentimento de vazio!!!
" Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo "
(sem título)
Comentários