Que assim seja!
As vezes eu acho que tudo não passa de um imenso quesito: aquilo que você pode e aquilo que você não pode. Aquilo que dá e aquilo que não dá. O que você consegue e aquilo que não consegue.
E durante muito, MUITO tempo mesmo eu achei que o grande ponto decisivo para essas resposta era eu, era você... Era única e exclusivamente de responsabilidade do indivíduo. E achava isso porque é assim que a sociedade da meritocracia ensina. Se você se esforçar e trabalhar duro... Você pode, você consegue.
Só que isso não é verdade!
Basta lembrar daquela passagem do pequeno príncipe onde ele pede ao rei "Gostaria de ver um pôr do sol… Por favor… Ordene ao Sol que se ponha agora…"; e ele o responde, dentre outras coisas: "...É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar".
O que uma criança que se constituiu como eu, genética e ambientalmente falando, pode ser senão isso que me tornei? Sim, talvez não tenha mesmo nada de errado comigo por não ter "podido", "dado" ou "conseguido" aos 40 anos estar como eu achei que podia, dava ou conseguiria. Afinal, todos nós fazemos o nosso melhor com aquilo que temos.
O ponto nem é esse!
O ponto é fazer nossas crianças (de dentro e de fora da gente) acreditarem que podem se comportar como o pequeno príncipe, que terão na vida as sortes e os suportes que ele teve ao longo do seu caminho, como se de fato alguém se importasse com algum tipo de justiça ou valor de equidade de oportunidades... Porque isso, nem de longe, a nossa sociedade vai nos dar.
Enquanto precisarmos de políticas afirmativas (que sim, sou politicamente super a favor) para reparo de grandes crueldades sociais e defesa do óbvio 'ululante' sobre direitos humanos, onde NINGUÉM mais morresse porque se é (seja por raça, sexo, etnia, identidade de gênero, orientação sexual, crença ou classe econômica), em um mundo onde negros e pardos, população indígena, mulheres, LGBTQIA+, pobres e devotos de crenças não hegemônicas são os mais dizimados só por serem quem são.... O que esperar que aconteça com os neurodivergentes???
Há bem pouco tempo atrás, castigavamos os canhotos por não serem destros com palmatórias. Autistas era massacrados em campos e concentração nazista. Suicídios por transtornos mentais ainda ocorrerão, sem serem elas mesmas as responsáveis por suas vidas ceifadas.
Então, por que eu deveria ainda suportar, resistir, não esmorecer a tanta opressão desse sistema que nos habita por dentro dos nossos corpos, personalidades e essência; se já sei que hoje, aos 40 anos, de posse do "meu melhor com aquilo que eu tinha" (releia com alerta de tom de ironia) eu não vou poder viver o que eu achei que podia, dava e/ou conseguia.
Acabou teatro. Acabou mochilar na Europa. Acabou repaginada no visual. Acabou o tempo para os cursos de mergulho e aulas de dança. Acabou compor letras de música popular infantil para crianças. Acabou fazer a diferença com resgate de valores ancestrais nos Trend TOPICS. Acabou covens ou convenção de Paranapiacaba (que, aliás, registra-se: eu nunca fui). Acabou! Acabou editar o livro de Yoga. Acabou coparticipação em projetos de responsa. Acabou escotismo ou ideias estapafúrdia de casa de convivência multicultural.
E, no ritmo que eu estou indo, acabou brincadeirinha de sala de aula e sonhos de adorável professora. Com sorte ainda me reste uma assistência administrativa em secretaria escolares e projetos temporário em convênios.
Quem sabe, com sorte, sobre para mim ainda os projetos: mãe (isso, claro, se eu não estragar tudo) e a companheira; que está ali, por seu grande homem (que ACREDITO meu Daniel mesmo sem saber, já é!!).
Mas não espere que eu possa, consiga ou dê conta de saltar para "boa dona de casa e chefe de família" (as belas, desbocadas e do lar); que aí, a prática - que é critério da verdade - já mostrou que não dá para mim. Esse legado parece que eu não herdei da minha ex-"família" de santo.
E não... Não estou aqui fazendo qualquer apologia a suicídio, pois já estou convencida que, na idade que estou, na condição de mãe, esposa e filha; este é um luxo que já não posso mais me dar.
Talvez, só o que eu possa fazer (e espero mesmo que este seja o pulo do gato que me falta) é parar de tentar ser quem não sou. Querer ter aquilo que não posso. Me conformar com aquilo que dá... E esperar que eu consiga, de algum modo, reprogramar meu sistema operacional emocional e constitucional, para algo mais factível e viável.
Que assim seja!
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