(mais uma pausa para falar sobre ABANDONO)


 

 a·ban·do·no |ô|
(substantivo masculino - derivação regressiva de abandonar)
1.  Ato ou efeito de abandonar.
2. Desprezo em que jazem as pessoas ou as coisas.
3. Renúncia, cessão, desistência.

a·ban·do·nar 
(verbo transitivo)
1. Deixar ao desamparo; deixar só.
2. Não fazer caso de.
3. Renunciar a.
4. Fugir de, retirar-se de.
5. Deixar o lugar em que o dever obriga a estar.
6. Soltar, largar.
(verbo pronominal)
7. Dar-se, entregar-se.
8. Desleixar-se, não cuidar de si.

...conforme in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021, https://dicionario.priberam.org/abandono [consultado em 27-05-2022].

Quando essa história de Bordeline começou, o gatinho foi algo bem específico: uma postagem no instagram falando sobre RSD (disforia sensível à rejeição):








Cada palavra me pegou de um tal modo, que não deu mais para negar como cada descrição faziam (e fazem) um sentido absurdo em mim. Então, desse dia em diante, passei - ainda que involuntariamente a viver, ruminar, em um super hiperfoco, cada momento em que me senti rejeitada.

AGORA, abandono... ah..... abandono é diferente!
Ao revisitar uma dessas ocasiões de RSD, por traz, lá no fundo, não havia uma visão distorcida da realidade; mas sim, complexos mecanismos de abandono.

E por abandono, nem sempre estou me referindo a circunstâncias intencionais. Estou me referindo ao léxico mesmo da palavra (por isso que fiz questão em começar essas linhas com seu significado denotativo).

Houve muitos momentos da minha vida eu que eu fui deixada só. Onde a renúncia era uma questão de sobrevivência e/ou necessidade. Com elas, eu sei que também houve várias brechas de abandono pelo sutil mecanismo emocional dos meus jovens pais (e até da sociedade) de fuga, de retirada das suas responsabilidades. Quantas e quantas vezes eu fui deixada em lugares inapropriados para uma criança, sozinha, permanecer ali a espera do adulto? E, com o tempo, o que poderia parecer, na adolescência que eu tinha uma criação mais solta, mais livre do que "normal" dos meus colegas de mesma idade, jamais enxerguei o quanto de não-cuidado também morava ali.

Vamos a eles:

  • Para um bebê prematuro, ser deixado na incubadora até a próxima visita, ainda que elas ocorressem de forma diária e constante, não deixa de ser uma experiência emocional de abandono. Vir ao mundo e não poder ficar a todo o tempo. Nasci de 24 semanas em 1982, levei quase 3 meses para ganhar peso e ter condições de voltar com ela para casa;

  • Meus pais se separaram quando eu tinha 3 meses. Para o meu irmão, essa foi uma lacuna e um trauma muito mais sofrido do que, aparentemente, para mim; que não parecia ter idade e maturidade para entender o que estava acontecendo. Mas, o resultado prático, foi o mesmo: a necessidade da minha mãe ser pai e mãe para sustentar 2 filhos em plena redemocratização do país. Logo, para que ela pudesse trabalhar / militar ou qq coisa que dizia respeito a nossa dinâmica familiar, ou o mais velho cuidava da mais novo (meu irmão é  6 anos mais velho do que eu), ou ficávamos os dois com alguma empregada... ninguém que representasse, de fato, uma figura de cuidado.

  • A parte boa é que, em alguns momentos da minha vida (como férias e longos períodos sem aula), quem - de algum modo - assumiu esse papel foi minha tia. Minha segunda mãe. Quem ocupou esse lugar de colo afetivo e que sempre me faz falta. Até em, 2002 - no auge dos meus 20 anos, ela nos deixar: atropelamento fatal, traumatismo craniano e encefálico.

  • Na escola, na condição de bolsista em um mundo de instituição de ensino particular, o sentimento de abandono era diário. Já ali, no portão de entrada, eu era deixada e entregue a minha própria sorte. Só Deus e eu sabemos o quanto de bullying eu passei, a grande maioria calada; tendo ainda um ou outro se tornado alvo de "reivindicação"...

  • ...ai, nesses casos, o abandono era de empatia emocional. Ter que lidar com uma mãe raivosa que usava o mesmo tom aguerrido para reivindicar providências, como se fossem pautas de justiça social, não era exatamente a conduta que eu mais me orgulhava de viver ao lado dela. Tamanha marca de convívio aquilo me legava, depois que a situação passava, para colegas, professores e demais contextos sociais.
 


  • Depois era os finais de semanas com meu pai: sempre em praças, bares, botecos ou botequim para que ele pudesse encher a cara, ouvir samba e passar um tempo com os colegas; enquanto o meu irmão e eu que nos virássemos para nos entreter ali. O mesmo eu poderia dizer das infinitas vezes em que acompanhei minha mãe em reuniões sindicais ou do partido. Sozinha, praticamente, quase nunca com crianças da minha idade, fadada a esperar 4 a 6 enfadonhas horas para NADA (no limite, algum suborno do tipo: na volta, a gente toma um sorvete)

  • Quando a adolescência chegou, eu tive a fase que todos nós temos, de testar limites, pleitear espaço, buscar cumplicidade nos rompantes de juventude. QUASE SEMPRE, eu os tinha... dai a ideia de que tinha os melhores pais do mundo. Aqueles que todos os amigos querem vir na sua casa para conhecer e conversar com eles. MAS, essa tal liberdade vinha com um preço. O da filha boazinha, perfeitinha, a que nunca dá trabalho e não decepciona (talvez para contrabalancear os milhares de problemas que os meus pais sempre tiveram com o meu irmão... e como isso me feria de morte!)

  • Eu compreendo que, quando somos crianças, tentamos moldar o nosso comportamento em busca de afeto e, devido a nosso discernimento ainda limitado e reprimimos, bloqueamos virtudes e afogamos muitos aspectos da nossa essência. Hoje eu vejo que este é exatamente o meu processo. Acabei crescendo e perpetuando esse padrão em relação com a sociedade, amigos, grupos sociais, profissionais e até relacionamentos afetivos.

  • Passei a acreditar que ei precisava ser A MISS PERFEITA, para assim estar dentro de um determinado modelo que me garantisse ser amada. O resultado disso: a máxima expressão da minha própria personalidade de que NUNCA eu serei suficiente.






E aqui, gostaria de fazer um ADENDO: não se trata de um panorama histórico com a única finalidade de culpabilizar meus pais ou minha própria sorte. Sei que eles, assim como eu, fizeram o melhor com que tinham condições de fazer. Minha criança do passado, ferida, também agiu da mesma maneira, ainda que fosse um mecanismo de defesa de mim mesmo.

  • No início da vida adulta, quando mais precisei de uma rede de suporte (início da minha vida acadêmica na Universidade, 1ª namoro oficial, tirando minha carteira de motorista) para me conduzir como iniciadores da vida adulta; eles (e eu!) adotamos o estigma da SUPER MULHER, SUPER FILHA que não precisa de mais nenhum suporte. Já estava mais do que encaminhada na vida. E foi aí que tudo desandou. Minha mãe foi morar em Brasília. Meu irmão, anos atrás, já estava morando no ACRE e, eu, um belo dia, na casa que foi da minha avó e onde todos nós morávamos juntos; me percebi absolutamente só. Largada, deixada aqui. 

  • Cada um foi cuidar da sua vida, minha vó, depois do fim da vida, já falecida, não havia mais uma alma se quer para dividir o dia comigo nesse espaço que uma dia fora familiar. Pai, Irmão, Mãe, Avó foram - pouco a pouco - indo embora. E eu fiquei... Parte porque não estava disposta a abandonar o início daquelas que eu compreendia ser as minhas primeiras conquistas da vida adulta e, em um fim último, não ser suficientemente importante para poder contar com alguém aqui que, por livre espontânea vontade, pensasse: vou ficar com ela, pois essa é uma fase difícil, ela vai precisar de suporte e cuidados.

  • Para engrossar o caldo desse imenso hiato familiar, eu vivia sucessivos abandonos afetivos, amorosos e de amizade, social. Ou porque não era bonita o suficiente, popular o suficiente, descolada o suficiente, X o suficiente para manter aqueles que eu amava perto de mim.

  • Vivi (e ainda vivo) a dura realidade de conviver com pessoas que, de algum modo, já foram imensamente presentes e afetivamente vinculadas comigo... até durar seus próprios interesses particulares. Quando eu não servia mais, por qualquer Y motivo, eu também era posta para escanteio. Não merecia mais a mesma priorização, nem se quer, a mesma atenção.

  • Passei, com um núcleo de poucos mas específicos amigos, a mendigar afeto. Chamar atenção de algum modo para mim. Seja por meio de masking, seja por pseudo trocas de interesses. Guardadas as devidas proporções do que o meu código de ética e moral permitem, eu vivi diversas vezes o parâmetro mercantilista das relações; mecanismo este típico do meu pai. Aonde eu poderia me enganar, pensando que eu estava apenas priorizando o "ganha-ganha", na verdade, era um trato entre as partes. Eu aceito o que não me agrada em X, Y, Z se esse fosse o preço de ter as pessoas próximas a mim. 
Exemplo: ah! a galerinha é fofoqueira e vai se reunir para falar mal da vida alheia, bora lá participar. Eu não preciso contribuir com a malhação do Judas, que meu código moral não me permitia, mas também não precisava ser - a todo tempo - a "estraga prazer" de um inquisidor moral... Ah, pessoal, isso não se faz. Coitado de fulano, ou ciclano.
  • Depois isso passou a alargar a minha tolerância a certas atitudes e comportamento promíscuo, que até hoje me dói por permiti-los. Só me legaram um tratamento pior do que de cachorro sarnento na rua

Enfim, poderia continuar a madrugada aqui mencionando mais uma série de outros episódios (destaque apenas a duas ocasiões onde, fruto de total alienação parental, que resultaram em situações de moléstia e abuso sexual)... E, nenhum deles seriam suficiente para dar conta do sentimento de abandono que eu carrego na alma. Em algumas circunstâncias, das pessoas para comigo... outras de mim, para comigo mesma.

Que essa investigação das minhas estruturas de personalidade e modos operantes de como ela pode (ou não) desencadear transtornos em minha saúde mental possa ser, portanto, o caminho de volta para casa. 

Mudaram as estações, nada mudou
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
'Tá tudo assim, tão diferente
Se lembra quando a gente
Chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre
Sem saber que o pra sempre sempre acaba
Mas nada vai conseguir mudar o que ficou
Quando penso em alguém só penso em você
E aí, então, estamos bem
Mesmo com tantos motivos
Pra deixar tudo como está
Nem desistir nem tentar, agora tanto faz
Estamos indo de volta pra casa

(Legião Urbana - Por enquanto)

 


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